Por Lucas Abelardo Fernandes Alves de Sousa
Em zoologia, espécies que vivem principalmente (embora não de maneira exclusiva) no subsolo e tem a capacidade de escavar são chamadas de fossoriais. Atualmente, sabe-se que a fossorialidade oferece benefícios ecológicos extremamente importantes para muitos táxons, como: acesso a microhabitats apropriados para realizar estivação (uma redução da taxa metabólica que ocorre em resposta a altas temperaturas), locais mais protegidos para os indivíduos se estabelecerem, bem como para suas ninhadas, e a possibilidade de realizar forrageamento subterrâneo, abrindo um novo leque de possibilidades alimentares.
Diante desses benefícios, um morfotipo especializado que fosse mais adequado para o modo de vida escavador pode ter sido um ponto de convergência para inúmeras famílias de anuros distintas entre si, como mostram algumas semelhanças morfológicas entre espécies pouco aparentadas. Essas características semelhantes que evoluíram repetidas vezes em várias linhagens que não as possuíam ancestralmente são conhecidas como evolução convergente. Pois, um bioma semelhante tenderá a favorecer qualidades similares em qualquer espécie que ocupe o mesmo nicho ecológico, mesmo que essas espécies sejam apenas remotamente relacionadas. Logo, organismos distantemente relacionados muitas vezes acabam desenvolvendo estruturas análogas ao se adaptarem a ambientes parecidos.
Isto posto, pode-se destacar que a maioria dos anuros que escavam usam principalmente os fortes membros posteriores para a tarefa, podendo cavar por vários metros. Porém, há muitos que quebram esse padrão, podendo escavar de formas bastante diversas. Esses diferentões intrigantes podem usar os membros anteriores, como a espécie africana Hemisus marmoratus e a europeia Alytes cisternasii, ou mesmo utilizar o focinho, como fazem os Leptodactylus fuscus, espécie que ocorre no Brasil.
Para além da cômica ideia de uma revolta anfíbia contra padrões, sabe-se que distintas técnicas de escavação são preferíveis a depender do objetivo almejado, visto que podem modificar fortemente a velocidade e a eficiência que essas pequenas criaturas se enterram. Diante disso, para conseguir entender melhor as nuances da fossorialidade em Amphibia, herpetólogos brasileiros estudaram um sapinho da família Microhylidae que ocorre em território nacional, o Dermatonotus muelleri, e compararam seu tipo de escavação com uma infinidade de outras espécies de anuros, obtendo resultados muito legais.

Figura 1: Ilustração científica representando Dermatonotus muelleri. Ilustrador: Daniel Matos
Com intuito de realizar essa complicada tarefa, onze machos da espécie foram coletados durante a época reprodutiva em uma lagoa semi-permanente no município de Vitória Brasil, São Paulo. Eles foram então mantidos em terrários na Universidade Estadual Paulista, São José do Rio Preto, onde foi possível observar as particularidades de seu comportamento de escavação, que pode ser resumido em três etapas principais:
Etapa 1: Inicialmente, o sapinho posiciona a cabeça quase perpendicular ao corpo e usa o focinho para tocar o solo, fornecendo suporte para a cintura escapular. Ele desloca o solo lateralmente usando movimentos alternados de seus membros anteriores.
Etapa 2: À medida que a rã continua escavando, ela remove a terra sob seu corpo usando movimentos alternados para trás dos membros anteriores e, em seguida, empurra-a para trás com os membros posteriores. Isto resulta no acúmulo de solo em direção à entrada do túnel, acabando por fechá-lo.
Etapa 3: Uma vez completamente enterrada, a rã se move paralelamente à superfície do solo, estendendo seus membros para fora e pressionando o solo acima de seu corpo para cima com sua região dorsal. Ele alarga a câmara usando movimentos laterais dos membros anteriores e aumenta a profundidade da câmara com movimentos alternados de varredura dos membros posteriores. A câmara normalmente tem 5 a 10 mm de espaço livre ao redor do sapo.
O comportamento de escavação de D. muelleri é comparável ao da espécie africana Hemisus marmoratus, que também utiliza primeiro a cabeça e os membros anteriores para cavar. Entretanto, mesmo com as semelhanças, ainda há diferenças pontuais, como o fato de a H. marmoratus apenas utilizar as patas traseiras apenas para posicionar o corpo depois que o buraco foi aberto pelas dianteiras, e não para remover a terra, como feito em D. muelleri. Adicionalmente, embora outros sapos fossoriais tenham movimentação semelhante a estas duas, elas são as únicas conhecidas por arquearem suas cabeças em quase 90 graus enquanto escavam, algo que a maior parte dos outros anuros não conseguem fazer, pois não podem movimentar suas cabeças independentemente de seus corpos.
As análises no trabalho indicam que o padrão de escavação utilizando primeiro os membros anteriores surgiu em pelo menos cinco ocasiões diferentes ao longo da história evolutiva desses animais, e uma vez especificamente no clado Athesphatanura (pererecas), possivelmente também derivado do padrão de escavação com os membros posteriores primeiro. Segundo os autores, esses múltiplos aparecimentos são respaldados pelo fato de que algumas espécies que escavam com os membros posteriores primeiro, como Rinophrynus dorsalis e Pseudepidalea viridis, demonstram igual capacidade de escavar utilizando primeiro as patas dianteiras, quando estão sob a terra.
O grande grau de semelhança anatômica e comportamental nos anfíbios que cavam primeiro com a cabeça e membros anteriores pode ser ainda atribuído à aridez sazonal, bem como à dieta especializada de cupins e formigas. No que diz respeito à estivação (e reprodução no caso de H. marmoratus) a capacidade de escavar dessas espécies serve para formar microhabitats ideais para processos fisiológicos. Sendo esse um hábito já extremamente antigo para o grupo, visto que a estivação em tocas provavelmente foi a forma como os antigos anuros fósseis evitavam dias quentes e períodos de seca, como evidenciado pelas modificações esqueléticas observadas em membros fossilizados.
Outrossim, a escavação primeiro com a cabeça e as patas da frente pode servir a um propósito adaptativo, melhorando a capacidade da rã de capturar presas subterrâneas. Pois, se este comportamento for eficaz na criação de túneis ou grandes câmaras subterrâneas, mantendo ao mesmo tempo os sistemas olfativo e auditivo frontal, ele pode auxiliar na detecção e captura de presas durante a locomoção subterrânea.
Portanto, diante dessa ampla discussão podemos chegar a alguns pontos centrais, como: o comportamento mais basilar dos anuros quanto a construção de tocas é escavar utilizando primeiro os membros posteriores, pois é necessário menos alterações em seu plano corporal, sendo uma tática difundida em todos os grupos existentes. Além disso, originada da escavação com as patas traseiras, a escavação com a cabeça e os membros anteriores evoluiu várias vezes na história dos anuros, estabelecendo um complexo de convergência que aproxima morfologicamente muitos grupos distintos.
REFERÊNCIAS
NOMURA, Fausto; ROSSA-FERES, Denise C.; LANGEANI, Francisco. Burrowing behavior of Dermatonotus muelleri (Anura, Microhylidae) with reference to the origin of the burrowing behavior of Anura. Journal of Ethology, v. 27, p. 195-201, 2009.
Filed under: Sem categoria | Tagged: Biologia de Répteis & Anfíbios, curiosidades, Divulgação, educação ambiental | Leave a comment »















