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Dermatonotus muelleri: o sapinho cavador

Por Lucas Abelardo Fernandes Alves de Sousa

Em zoologia, espécies que vivem principalmente (embora não de maneira exclusiva) no subsolo e tem a capacidade de escavar são chamadas de fossoriais. Atualmente, sabe-se que a fossorialidade oferece benefícios ecológicos extremamente importantes para muitos táxons, como: acesso a microhabitats apropriados para realizar estivação (uma redução da taxa metabólica que ocorre em resposta a altas temperaturas), locais mais protegidos para os indivíduos se estabelecerem, bem como para suas ninhadas, e a possibilidade de realizar forrageamento subterrâneo, abrindo um novo leque de possibilidades alimentares.

Diante desses benefícios, um morfotipo especializado que fosse mais adequado para o modo de vida escavador pode ter sido um ponto de convergência para inúmeras famílias de anuros distintas entre si, como mostram algumas semelhanças morfológicas entre espécies pouco aparentadas. Essas características semelhantes que evoluíram repetidas vezes em várias linhagens que não as possuíam ancestralmente são conhecidas como evolução convergente. Pois, um bioma semelhante tenderá a favorecer qualidades similares em qualquer espécie que ocupe o mesmo nicho ecológico, mesmo que essas espécies sejam apenas remotamente relacionadas. Logo, organismos distantemente relacionados muitas vezes acabam desenvolvendo estruturas análogas ao se adaptarem a ambientes parecidos.

Isto posto, pode-se destacar que a maioria dos anuros que escavam usam principalmente os fortes membros posteriores para a tarefa, podendo cavar por vários metros. Porém, há muitos que quebram esse padrão, podendo escavar de formas bastante diversas. Esses diferentões intrigantes podem usar os membros anteriores, como a espécie africana Hemisus marmoratus e a europeia Alytes cisternasii, ou mesmo utilizar o focinho, como fazem os Leptodactylus fuscus, espécie que ocorre no Brasil.
Para além da cômica ideia de uma revolta anfíbia contra padrões, sabe-se que distintas técnicas de escavação são preferíveis a depender do objetivo almejado, visto que podem modificar fortemente a velocidade e a eficiência que essas pequenas criaturas se enterram. Diante disso, para conseguir entender melhor as nuances da fossorialidade em Amphibia, herpetólogos brasileiros estudaram um sapinho da família Microhylidae que ocorre em território nacional, o Dermatonotus muelleri, e compararam seu tipo de escavação com uma infinidade de outras espécies de anuros, obtendo resultados muito legais.

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Figura 1: Ilustração científica representando Dermatonotus muelleri. Ilustrador: Daniel Matos

Com intuito de realizar essa complicada tarefa, onze machos da espécie foram coletados durante a época reprodutiva em uma lagoa semi-permanente no município de Vitória Brasil, São Paulo. Eles foram então mantidos em terrários na Universidade Estadual Paulista, São José do Rio Preto, onde foi possível observar as particularidades de seu comportamento de escavação, que pode ser resumido em três etapas principais:

Etapa 1: Inicialmente, o sapinho posiciona a cabeça quase perpendicular ao corpo e usa o focinho para tocar o solo, fornecendo suporte para a cintura escapular. Ele desloca o solo lateralmente usando movimentos alternados de seus membros anteriores.

Etapa 2: À medida que a rã continua escavando, ela remove a terra sob seu corpo usando movimentos alternados para trás dos membros anteriores e, em seguida, empurra-a para trás com os membros posteriores. Isto resulta no acúmulo de solo em direção à entrada do túnel, acabando por fechá-lo.

Etapa 3: Uma vez completamente enterrada, a rã se move paralelamente à superfície do solo, estendendo seus membros para fora e pressionando o solo acima de seu corpo para cima com sua região dorsal. Ele alarga a câmara usando movimentos laterais dos membros anteriores e aumenta a profundidade da câmara com movimentos alternados de varredura dos membros posteriores. A câmara normalmente tem 5 a 10 mm de espaço livre ao redor do sapo.

O comportamento de escavação de D. muelleri é comparável ao da espécie africana Hemisus marmoratus, que também utiliza primeiro a cabeça e os membros anteriores para cavar. Entretanto, mesmo com as semelhanças, ainda há diferenças pontuais, como o fato de a H. marmoratus apenas utilizar as patas traseiras apenas para posicionar o corpo depois que o buraco foi aberto pelas dianteiras, e não para remover a terra, como feito em D. muelleri. Adicionalmente, embora outros sapos fossoriais tenham movimentação semelhante a estas duas, elas são as únicas conhecidas por arquearem suas cabeças em quase 90 graus enquanto escavam, algo que a maior parte dos outros anuros não conseguem fazer, pois não podem movimentar suas cabeças independentemente de seus corpos.

As análises no trabalho indicam que o padrão de escavação utilizando primeiro os membros anteriores surgiu em pelo menos cinco ocasiões diferentes ao longo da história evolutiva desses animais, e uma vez especificamente no clado Athesphatanura (pererecas), possivelmente também derivado do padrão de escavação com os membros posteriores primeiro. Segundo os autores, esses múltiplos aparecimentos são respaldados pelo fato de que algumas espécies que escavam com os membros posteriores primeiro, como Rinophrynus dorsalis e Pseudepidalea viridis, demonstram igual capacidade de escavar utilizando primeiro as patas dianteiras, quando estão sob a terra.

O grande grau de semelhança anatômica e comportamental nos anfíbios que cavam primeiro com a cabeça e membros anteriores pode ser ainda atribuído à aridez sazonal, bem como à dieta especializada de cupins e formigas. No que diz respeito à estivação (e reprodução no caso de H. marmoratus) a capacidade de escavar dessas espécies serve para formar microhabitats ideais para processos fisiológicos. Sendo esse um hábito já extremamente antigo para o grupo, visto que a estivação em tocas provavelmente foi a forma como os antigos anuros fósseis evitavam dias quentes e períodos de seca, como evidenciado pelas modificações esqueléticas observadas em membros fossilizados. 

Outrossim, a escavação primeiro com a cabeça e as patas da frente pode servir a um propósito adaptativo, melhorando a capacidade da rã de capturar presas subterrâneas. Pois, se este comportamento for eficaz na criação de túneis ou grandes câmaras subterrâneas, mantendo ao mesmo tempo os sistemas olfativo e auditivo frontal, ele pode auxiliar na detecção e captura de presas durante a locomoção subterrânea.

Portanto, diante dessa ampla discussão podemos chegar a alguns pontos centrais, como: o comportamento mais basilar dos anuros quanto a construção de tocas é escavar utilizando primeiro os membros posteriores, pois é necessário menos alterações em seu plano corporal, sendo uma tática difundida em todos os grupos existentes. Além disso, originada da escavação com as patas traseiras, a escavação com a cabeça e os membros anteriores evoluiu várias vezes na história dos anuros, estabelecendo um complexo de convergência que aproxima morfologicamente muitos grupos distintos.

REFERÊNCIAS

NOMURA, Fausto; ROSSA-FERES, Denise C.; LANGEANI, Francisco. Burrowing behavior of Dermatonotus muelleri (Anura, Microhylidae) with reference to the origin of the burrowing behavior of Anura. Journal of Ethology, v. 27, p. 195-201, 2009.

Matamata: a quimera da Amazônia

Por Tatiana Feitosa e Daniel Matos

Matamata, Chelus fimbriata (Schneider, 1783), é a maior espécie da família Chelidae, facilmente identificada pelas suas características morfológicas distintas, um tanto bizarras também, como cabeça triangular, larga e achatada, com as laterais orladas por lóbulos de pele sensorial, e terminando em uma tromba tubular em cujo ápice estão localizadas as narinas (Mondolfi, 1955; Prichard e Trebbau, 1984; Müller, 1995) (figura 01). Seus olhos são muito pequenos, o pescoço é longo e robusto e apresenta inúmeras rugas e dobras. O dorso é marrom escuro e relativamente plano, com escudos vertebrais em forma piramidal. Os dedos são dotados de membranas interdigitais e a cauda é curta em ambos os sexos, mas ligeiramente mais longa nos machos (Müller 1995). Seu formato peculiar fez com que as comunidades ribeirinhas do Amazonas fizessem brincadeiras sobre como o matamata foi montado a partir de outros animais, tal qual uma quimera. 

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Figura 1: Ilustração científica representando Chelus fimbriata. Ilustrador: Daniel Matos

É uma espécie forrageadora passiva, com uma estratégia alimentar de senta e espera, de hábitos noturnos e dieta principalmente carnívora, a qual inclui peixes, anfíbios e crustáceos; embora possa eventualmente consumir aves e pequenos mamíferos (Espenshade, 1990; Müller, 1995). Ocupam regularmente habitats aquáticos lênticos ou de fluxo muito lento (remansos de rios, canais, poços, pântanos, brejos) nos quais selecionam áreas rasas com fundo lamacento, serapilheira abundante no leito e águas escuras devido ao efeito dos ácidos tânicos (Prichard e Trebbau, 1984).

Um fato curioso é que a ampla distribuição associada com variações morfológicas incentivaram o debate sobre a existência de diferentes espécies ou espécies de matamata. Dessa forma, um trabalho publicado por Vargas-Ramírez et al. (2020) comparou filogeneticamente as populações do Amazonas e do Orinoco, descrevendo uma nova espécie de matamata, o Chelus orinocensis

Ambas as espécies de matamata tem distribuição geográfica Neotropical, com C. fimbriata ocupando as bacias dos rios Amazonas, no Brasil, e Mahury, na Guiana Francesa, enquanto C. orinocensis vive nas bacias do Orinoco, que corta a Colômbia e a Venezuela, e alto rio Negro, no Brasil  (Vargas-Ramírez et al. 2020). As linhagens que originaram essas espécies divergiram há cerca de 13 milhões de anos, quando as bacias dos rios Orinoco e Amazonas se separaram. Ainda há suspeitas de uma terceira espécie (ou um híbrido das duas anteriores) ocorrendo nos rios Essequibo, na Guiana, e Branco, no Brasil. Esses achados refletem a importância de olhar atentamente às populações da herpetofauna e sua história biogeográfica e a descrição de uma nova espécie impacta intensamente nas políticas de conservação anteriormente propostas.

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Figura 2: Mapa de distribuição das espécies de matamata. Autor: Fábio Muniz/UFAM. Disponível em: <https://portalamazonia.com/amazonia/conheca-a-matamata-uma-estranha-tartaruga-da-amazonia&gt;

São espécies utilizadas para consumo de subsistência e ocasionalmente por algumas comunidades indígenas, além de serem utilizadas para fins medicinais (Morales-Betancourt e Lasso, 2012). Na Colômbia está sujeita ao tráfico de neonatos e juvenis para venda como animais de estimação, sendo apreendidos só  entre 2005 e 2009  cerca de 224 mil animais vivos, sendo a maioria dessa espécie (Mads, 2012; Morales-Betancourt et al., 2015; Lasso et al., 2018). Por se tratar de espécies que não possuem categoria de ameaça global, o comércio internacional não é regulamentado pela Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (Cites), mas sim pelas regulamentações de cada país. O comércio e tráfico destas espécies baseia-se no fato de ser uma das tartarugas mais procuradas a nível internacional, como se verifica nas ofertas em redes virtuais e páginas web.

REFERÊNCIAS

Espenshade, W. 1990. Matamata, Chelus fimbriatus. Tortuga Gazzete 26(5): 3–5.

Lasso, Carlos A., Trujillo, Fernando, Morales-Betancourt, Monica A., Amaya, Laura, Caballero, Susana, & Castañeda, Beiker. (2018). Conservación y tráfico de la tortuga matamata, Chelus fimbriata (Schneider, 1783) en Colombia: un ejemplo del trabajo conjunto entre el Sistema Nacional Ambiental, ONG y academia. Biota colombiana, 19(1), 147-159. https://doi.org/10.21068/c2018.v19n01a10.

MADS-Ministerio de Ambiente y Desarrollo Sostenible. (2012). Estrategia nacional para la prevención y control al tráfico ilegal de especies silvestres: diagnóstico y plan de acción ajustado. Bogotá D. C., Colombia : Ministerio de Ambiente y Desarrollo Sostenible. 100 pp.

Mondolfi, E. 1955. Anotaciones sobre la biología de tres quelonios de Los Llanos de Venezuela. Memoria de la Sociedad de Ciencias Naturales La Salle 42: 173–187

Morales-Betancourt, M. A. y Lasso, C. A. (2012). Chelus fimbriatus. En Páez, V. P., MoralesBetancourt, M. A., Lasso, C. A., Castaño-Mora, O. V. y Bock, B. C. (Eds.). Biología y conservación de las tortugas continentales de Colombia. Serie Editorial Recursos hidrobiológicos y pesqueros continentales de Colombia. Pp. 243-246. Bogotá, D. C., Colombia: Instituto de Investigación de los Recursos Biológicos Alexander von Humboldt (IAvH).

Morales-Betancourt, M. A., Lasso, C. A., Páez, V. P. y Bock, B. (2015). Libro rojo de reptiles de Colombia. Bogotá, D. C., Colombia: Instituto de Investigación de Recursos Biológicos Alexander von Humboldt (IAvH), Universidad de Antioquia. 258 pp. 

Müller, G. 1995. Tortugas terrestres y acuáticas en el terrario. Omega, Barcelona. 229 pp.

Prichard, P. Y and Trebbau, P. 1984. The turtles of Venezuela. Contributions to Herpetology 2. Society for the Study for Anphibians and Reptiles. Ithaca. 403 pp.

Schmidt, S. A divisão dos matamatas. Pesquisa FAPESP, 2020. Disponível em: <https://revistapesquisa.fapesp.br/a-divisao-dos-matamatas/&gt;. Acesso em 22 de outubro de 2023.

VARGAS-RAMÍREZ, Mario et al. Genomic analyses reveal two species of the matamata (Testudines: Chelidae: Chelus spp.) and clarify their phylogeography. Molecular phylogenetics and evolution, v. 148, p. 106823, 2020.

A Malha-de-fogo

Por Daniel Matos

Atraída pela chama de incêndios e fogueiras, essa serpente possui escamas grossas que a protegem, permitindo que ela se movimente em meio ao fogo. Dessa lenda, contada no Ceará, origina-se seu nome popular no estado: Malha-de-fogo.

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Ilustração de Lachesis muta adaptada de MT Amazon Expeditions. Ilustrador: Daniel Matos.

Também conhecida como surucucu-pico-de-jaca, a Lachesis muta é a maior serpente peçonhenta da América Latina, podendo atingir 3,5m de comprimento, e ocorre tanto em região Amazônica (L. muta muta), quanto em florestas costeiras do Brasil (L. muta rhombeata). Assim como os demais viperídeos nativos do Brasil, elas apresentam fosseta loreal como órgão de termorrecepção, mecanismo pelo qual aferem a presença de potenciais presas, e dentição solenóglifa, a mais especializada na inoculação de peçonha. Seu padrão de coloração, no entanto, é muito diferente dos padrões de Jararacas (Bothrops sp. e Bothrocophias sp.) e Cascavéis (Crotalus sp.) brasileiras, com escamas marrom-alaranjadas cobrindo boa parte do corpo e escamas pretas distribuídas em padrão losangular ao longo da região dorsal do animal, em formato de faixa atrás dos olhos e, sem padrão definido, no topo da cabeça. Além disso, outra característica notável é a cauda, que apresenta escamas mais eriçadas e um espinho ósseo na ponta, utilizado para produzir barulho quando bate a cauda no chão, um comportamento compartilhado entre diversas serpentes.

Ao contrário do que as lendas contam, esses animais não são imunes ao fogo. Os incêndios, inclusive, são uma enorme ameaça à existência da espécie. Em linhas gerais, espécies com área de ocorrência restrita apresentam maior suscetibilidade à extinção do que espécies com uma distribuição mais ampla, especialmente quando fatores antrópicos entram em questão. Desastres naturais, queimadas, perda de habitat e tráfico de animais, por exemplo, são fatores que afetam diretamente a existência de espécies no geral, onde o risco é intensificado conforme as áreas de ocorrência delas diminuem. Fora os problemas citados, as serpentes precisam lidar ativamente com uma problemática mais subjetiva, mas com grandes consequências para sua sobrevivência: o imaginário humano. Por temores fantasiosos transmitidos através de contos populares, mitos e lendas, serpentes são mortas de formas brutais e injustas todos os dias. Em verdade, ainda que normalmente sejam criaturas inofensivas e importantes para a saúde dos ecossistemas, muitos desconhecem tal relevância, ignorando os papel ecológicos que desempenham como predadoras e controladoras de “pragas” (frequentemente espécies trazidas e/ou proliferadas por seres humanos). Todavia, antes de atribuir a uma espécie qualquer funcionalidade essencial para a manutenção do ´´bem-estar“ humano, é de fulcral importância frisar que a compreensão do direito à vida, garantido a todos os animais, é essencial para inibir as covardias realizadas contra serpentes e outros animais silvestres.

Ao pensar na fauna do Ceará, imaginamos animais adaptados a ambientes secos, quentes, com pouca cobertura vegetal e baixa disponibilidade de recursos, mas a realidade não é somente essa. Existem regiões de caatinga propriamente dita, que percorrem relativamente dentro do estereótipo esperado, mas nosso estado apresenta diversas fitofisionomias (diferentes padrões de vegetação), de mangues e campos praianos à brejos de altitude, ambientes que abrigam distintos representantes da biodiversidade faunística cearense. A Serra de Baturité, por exemplo, contém uma das mais relevantes Unidades de Conservação do estado, um espaço de mata úmida capaz de abrigar muitas espécies, como o periquito-cara-suja, o cuandu e a própria Lachesis muta, que, em nosso estado,  ocorre somente no Maciço de Baturité.

A pico-de-jaca possui uma baixíssima incidência de acidentes, apenas cerca de 1,4% dos registrados no Brasil e cerca de 0,38% dos registrados no Ceará, o que pode ser explicado por certos fatores inerentes a espécie, como o fato de serem animais com baixa densidade populacional – apresenta uma baixa população absoluta por extensão territorial -, e por apresentarem um grande tamanho, fazendo com que sejam vistas mais facilmente, bem como um comportamento menos agressivo quando comparado à outras espécies da mesma família com ocorrência em nosso país. Ainda que raros, acidentes laquéticos são potencialmente letais, em via de regra ocorrendo quando o animal se sente ameaçado. A peçonha inoculada por Lachesis apresenta ação similar à peçonha botrópica, com atividade proteolítica, coagulante e hemorrágica, mas com o diferencial do efeito neurotóxico. Os sintomas locais são inflamação, com dor e necrose no local da picada, vermelhidão, inchaço, bolhas e hematomas que podem se estender para todo o membro afetado. De acordo com a demora na administração do soro antiofídico, podem aparecer sintomas sistêmicos como sangramentos pelos orifícios naturais e nos órgãos internos, diminuição na pressão arterial e nos batimentos cardíacos, náuseas, cólica e diarreia.

 A baixa área de distribuição da espécie é um dos fatores determinantes para sua preservação, além de influenciar, juntamente com comportamentos característicos, a baixa incidência de acidentes ofídicos relacionados à Lachesis no Brasil. Em caso de acidentes, o paciente deve ir imediatamente à unidade de saúde mais próxima. Mesmo que nela não haja o soro antiofídico, ele receberá o tratamento de suporte enquanto a equipe médica providencia a aquisição do soro. O paciente também pode se informar com o Centro de Intoxicações (CIATOX) através do telefone (85) 3255.5050.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, I. L. et al. Boletim de Serpentes: vigilância dos acidentes com serpentes, n.1. Secretaria de Saúde do Ceará, 05 de julho de 2022. 

BERNARDE, P. S. Anfíbios e Répteis: Introdução ao Estudo da Herpetologia Brasileira. Análise Books, 2012.

CARDOSO, J. L. C. et al. Animais peçonhentos do Brasil: Biologia, clínica e terapêutica dos acidentes. São Paulo. Sarvier, 2019.

LIMA, Pedro Henrique Santana de; HADDAD JUNIOR, Vidal. A snakebite caused by a bushmaster (Lachesis muta): report of a confirmed case in State of Pernambuco, Brazil. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 48, p. 636-637, 2015.

PARDAL, Pedro Pereira de Oliveira et al. Acidente por Surucucu (Lachesis muta muta) em Belém-Pará: Relato de caso. Revista Paraense de Medicina, v. 21, n. 1, p. 37-42, 2007.

SANTOS, T. C. Conservations Strategies for Vulnerable Bushmaster Snakes (Lachesis muta rhombeata) in Forest Remnants, Northeastern Brazil. The Rufford Foundation, Reino Unido, 25 de maio de 2022. Disponível em:<https://www.rufford.org/projects/thabata-cavalcante-dos-santos/conservation-strategies-vulnerable-bushmaster-snakes-lachesis-muta-rhombeata-forest-remnants-northeastern-brazil/&gt; Acesso em 26 de fevereiro de 2023.

Serra do Baturité, uma riqueza cearense – parte 2. YMBU Agroflorestal, Caridade. Disponível em: <https://www.ymbuagroflorestal.com.br/serra-do-baturite-uma-riqueza-cearense-parte-2/#:~:text=S%C3%A3o%20elas%3A%20Coendou%20baturitensis%20> Acesso em 26 de fevereiro de 2023.

TÚLIO, D. A serpente invisível do Ceará. O POVO, Fortaleza, 04 de janeiro de 2022. Caderno de Notícias. Disponível em:<https://mais.opovo.com.br/jornal/reportagem/2022/01/04/a-serpente-invisivel-do-ceara.html#:~:text=No%20Cear%C3%A1%2C%20a%20serpente%20%C3%A9,a%20protegeriam%20de%20morrer%20queimada.&gt; Acesso em 26 de fevereiro de 2023.

Eu queria ser uma abelha pra pousar na tua flora

Por Lucas Abelardo Fernandes Alves de Sousa

A polinização biótica é definida como a transferência de microgametófitos altamente reduzidos – o pólen – da antera de uma planta para o estigma de outra, particularmente por intermédio de outros organismos. Esse processo, embora para alguns pareça de valor trivial (muito graças a seu caráter corriqueiro), é de extrema importância para a diversidade, bem como para continuidade da vida vegetal no planeta, visto que permite tanto a fertilização, quanto a produção de sementes viáveis com diversidade genética. Dentre os incontáveis agentes bióticos que desempenham um papel nesse meio, dada intensa pesquisa científica, certos grupos já são velhos conhecidos nas interações planta-animal, como os insetos, as aves e os mamíferos de pequeno porte. No entanto, recentemente, uma pequena perereca brasileira roubou os holofotes da área, sendo muito provavelmente a primeira espécie de anfíbio polinizador já descoberta.

A pequena grande novidade herpetológica em questão é a perereca Xenohyla truncata, com apenas cerca de cinco centímetros de comprimento, endêmica das planícies costeiras do Rio de Janeiro (áreas de restinga do Sudeste brasileiro). Pesquisadores brasileiros descobriram um novo e impressionante comportamento alimentar para essa curiosa criatura, que tanto a coloca como uma polinizadora em potencial de espécies vegetais nativas e exóticas, quanto expande o horizonte de possíveis papéis ecológicos distintos para outros anuros. A espécie foi observada utilizando movimentos de sucção para se alimentar do néctar altamente energético, em especial, mas não somente, da fruteira brasileira Cordia taguahyensis (nativa das mesmas áreas úmidas), e posteriormente foi verificada carregando grão de pólen no caminho de uma flor para outra. Inclusive, presumivelmente selecionando dimensões e formatos das estruturas florais em suas passagens, tendo em vista que elas destroem as flores pequenas que não suportam seu tamanho e peso.

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Figura 1 – Ilustração científica representando Xenohyla truncata e Cordia taguahyensis. Ilustrado por: Daniel Moreira Matos

Com o intuito de explicar a preferência ímpar por néctar, os autores do trabalho argumentam que, pelo fato de vocalizar ser uma das atividades fisiologicamente mais dispendiosas, no que diz respeito a recursos, a alimentação com néctar pode ser uma fonte extremamente considerável de energia (sobretudo em épocas reprodutivas) para indivíduos envolvidos em atividades tanto de vocalização, quanto de disputas territoriais. Os idealizadores do artigo citam também que, para as fêmeas, com o alto gasto energético para a produção de ovócitos, a procura por néctar pode ser decisiva para a sobrevivência.

Outrossim, mostra-se interessante destacar que a possível polinização não é o único ponto peculiar desta espécie fluminense, visto que, anteriormente, esse modesto anuro já era considerado bastante dessemelhante graças ao fato de ser um onívoro bastante capaz, alimentando-se ativamente de flores e tendo preferência excepcional por frutas, com um papel já estabelecido no bioma como dispersor de sementes. O conhecimento zoológico já consolidado mostra que a esmagadora maioria das espécies de anfíbios atuais são carnívoras, sendo os insetos os principais elementos de sua dieta. Para indivíduos pós-metamórficos, o consumo de frutas, bem como outras partes vegetais (folhas e flores, em particular), é um tipo de alimentação rara, conhecida apenas por um pequeno punhado de espécies, como a Xenohyla truncata, o que lança preocupações reais sobre a conservação dessas pequenas criaturas, que tendem a correr mais riscos de desaparecer à medida que a expansão imobiliária ameaça seu habitat costeiro.

REFERÊNCIAS

  1. DE-OLIVEIRA-NOGUEIRA, Carlos Henrique et al. Between fruits, flowers and nectar: The extraordinary diet of the frog Xenohyla truncata. Food Webs, v. 35, p. e00281, 2023.

Você conhece a fauna de répteis e anfíbios ameaçados do Estado do Ceará?

Pro Bruno Guilhon

Recentemente, foi elaborada e publicada a Lista Vermelha dos Anfíbios e Répteis Continentais Ameaçados de Extinção do Ceará, através da portaria nº 146, de 27 de setembro de 2022 (SEMA, 2022), disponível em https://www.sema.ce.gov.br/lista-vermelha-de-especies-ameacadas-da-fauna-do-ceara/lista-vermelha-anfibios-e-repteis/). Além disso, também foi elaborada uma lista vermelha para as tartarugas marinhas, disponível em https://www.sema.ce.gov.br/wp-content/uploads/sites/36/2022/12/LISTA-TARTARUGAS-MARINHAS.pdf.

 Uma Lista Vermelha é um instrumento crucial no campo da conservação da biodiversidade. Ela desempenha um papel fundamental na identificação e avaliação do risco de extinção de diversas espécies, fornecendo uma base científica para direcionar esforços para conservação dessas espécies (IUCN, 2020). Além disso, as listas permitem a comparação entre diferentes regiões e países, possibilitando a elaboração de estratégias de conservação em níveis global, regional e local.

As espécies listadas na Lista Vermelha são classificadas em diferentes graus de ameaça, que indicam o risco de extinção em que se encontram. Os principais graus de ameaça são: “Extinta” (quando não há dúvidas sobre a extinção da espécie); “Extinta na Natureza” (quando a espécie só existe em cativeiro); “Criticamente em Perigo” (quando a espécie está enfrentando um alto risco de extinção); “Em Perigo” (quando a espécie está em risco significativo de extinção); “Vulnerável” (quando a espécie está em risco moderado de extinção); e, “Quase Ameaçada” (quando a espécie não atinge os critérios para ser classificada em uma das categorias anteriores, mas corre o risco de se tornar ameaçada) (IUCN, 2022). Essas categorias de ameaça são de extrema importância para determinar a urgência e a intensidade das medidas de conservação necessárias para cada espécie. Elas fornecem uma linguagem padronizada e acessível para a comunicação do risco de extinção, facilitando o entendimento e a tomada de decisão por parte dos gestores ambientais e do público em geral.

Os critérios para a classificação nas categorias de ameaça correspondem a quantidade e tipos de ameaças que as espécies estão sujeitas, como redução do tamanho das populações; redução da área de ocupação e área de distribuição; degradação da qualidade do habitat em que a espécie ocorre, entre outras ameaças. Seguindo esses critérios e categorias, foram classificados para o Estado do Ceará três anfíbios, 11 répteis continentais e quatro tartarugas marinhas em algum grau de ameaça (SEMA, 2022), como: Vulnerável (VU), Em Perigo (EN) e Criticamente em Perigo (CR).

A importância de uma Lista Vermelha é evidente. Ela permite identificar as espécies ameaçadas presentes na região, direcionando a atenção e os recursos para a proteção dessas espécies e seus habitats. A lista fornece informações valiosas sobre as principais ameaças enfrentadas por cada espécie, permitindo a implementação de medidas específicas de conservação e ações direcionadas. Essas medidas têm o objetivo de garantir a sobrevivência das espécies e sua preservação em longo prazo, conservando não somente elas, mas outras espécies da mesma região e o próprio habitat.

De forma geral, as principais ameaças identificadas para as espécies no Estado do Ceará são os altos níveis de desmatamento, principalmente por conta do cultivo de monoculturas de banana e de café, bem como pela expansão imobiliária, havendo assim, diminuição da qualidade do ambiente que esses animais têm para viver (Lima; Cascon, 2008). Além disso, um fungo patológico (Batrachochytrium dendrobatidis) que vem ameaçando espécies de anfíbios no mundo todo (Sewell et al., 2021) também foi encontrado infectando espécies de sapos no estado, dentre eles, o Sapo-do-Araripe (Proceratophrys ararype) (Mendes, 2021), já ameaçado pela introdução de plantas exóticas e pela canalização dos riachos para uso agrícola e recreativo. Em suma, a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção é uma ferramenta indispensável para a conservação da biodiversidade. No Ceará, essa foi a primeira vez que uma Lista Vermelha foi desenvolvida, visando o desenvolvimento e a implementação de medidas de conservação eficazes, ao mesmo tempo em que promove a divulgação da fauna ameaçada, sendo esta ação de importância fundamental para garantir a sobrevivência dessas espécies e a preservação dos ecossistemas aos quais pertencem. Afinal, é como diz aquela famosa frase: “É preciso conhecer para conservar!”.

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Figura 1 – Exemplos de espécies inseridas na Lista Vermelha dos Anfíbios e Répteis Continentais Ameaçados de Extinção do Ceará. Proceratophrys ararype (A), Strobilurus torquatus (B), Placosoma limaverdorum (C), Lachesis muta (D). Fotos: Robson Ávila e Igor Joventino.

REFERÊNCIAS

  1. IUCN. 2020. The IUCN Red List of Threatened Species. Acesso em 10 de junho de 2023, de https://www.iucnredlist.org/.
  1. IUCN. 2022. Diretrizes para o Uso das Categorias e Critérios da Lista Vermelha da UICN. Versão 15.1. Preparada pelo Comitê de Padrões e Petições. Disponível em https://www.iucnredlist.org/resources/redlistguidelines.&nbsp;
  1. Lima, D. C.; Cascon, P. 2008. Aspectos socioambientais e legais da bananicultura na APA da Serra de Maranguape, Estado do Ceará. Rede (Revista Eletrônica do Prodema), 2 (1): p. 64-79.
  1. Mendes, M. S. 2011. Detecção do fungo Batrachochytrium dendrobatidis em Anuros no estado do Ceará, Brasil. 2021. 58f. Dissertação (Mestrado em Sistemática, Uso e Conservação da Biodiversidade) – Universidade Federal do Ceará, Fortaleza.
  1. SEMA. 2022. Diário Oficial do Estado – CE. Portaria SEMA Nº 146, de 27 de setembro de 2022 – Dispõe sobre a lista vermelha dos anfíbios e répteis continentais ameaçados de extinção do Ceará. Disponível em http://imagens.seplag.ce.gov.br/PDF/20220927/do20220927p01.pdf.
  1. Sewell, T. R.; Longcore, J.; Fisher, M. C. 2021. Batrachochytrium dendrobatidis. Trends in Parasitology, v. 37, n. 10, p. 933-934.

Por que estudar parasitologia de anfíbios e répteis?

Por Cícero Ricardo de Oliveira

Muitas pessoas podem se perguntar: “Por que estudar parasitas de sapos e lagartixas?”. Em uma visão com relação direta as nossas vidas, aparentemente não faz sentido esses estudos. E muitas pessoas podem dizer, que em nada os “vermes” desses animais podem ajudar ou ser prejudiciais, visto que, em sua maioria, o ser humano não faz parte do ciclo parasitário desses indivíduos. Mas, aí é onde está o erro. Apesar de não sermos hospedeiros para esse tipo de parasito, a existência e interação desses com as espécies podem influenciar as nossas vidas em algum momento, como no surgimento de viroses ou pandemias de origens animais como a Covid-19, ou na degradação e, em alguns casos extremos, extinção de espécies. Em outros tipos de pesquisa, o estudo com parasitos pode auxiliar na produção de fármacos. Um bom exemplo são espécies de jararacas que têm em seu veneno o princípio ativo para a produção de remédios para hipertensos (captopril). Ainda podemos citar os vários problemas encontrados em âmbito veterinário para espécies que são tidas como pets ou mesmo no ambiente natural, onde o parasitismo pode causar a morte desses animais (ARAUJO-FILHO et al. 2013). Então, podemos ver o quão importante é conhecer esses parasitos!

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Figura 1 – Indivíduo de Lachesis muta da Mata Atlântica de Pernambuco (A); Cavidade celomática com parasitos (B). Fonte: ARAUJO-FILHO et al. 2013

Os parasitos são organismos diversos que são parte integrante da natureza, representando a maior parte da biodiversidade global e possuem uma das estratégias de vida mais comuns no planeta (WINDSOR 1998; KURIS 2008). Estes organismos estão envolvidos em vários processos de regulamentação, e podem influenciar as condições das populações hospedeiras, porque interferem em processos cruciais como competição, migração, dispersão, reprodução e especiação (VITT & CALDWELL 2009). Assim, o conhecimento da diversidade e distribuição de parasitas é importante para entender o papel das relações ecológicas entre parasitas e hospedeiro na dinâmica dos ecossistemas (POULIN & KRASNOV 2010; CAMPIÃO et al. 2015).

Outro ponto importante, é que os parasitas apresentam grande importância ecológica (MARCOGLIESE 2004; POULIN & MORAND 2004), porque estão intimamente relacionados às condições ambientais e, portanto, podem ser considerados indicadores potenciais de qualidade ambiental (CATALANO et al. 2013). Além disso, alguns grupos parasitas são mais sensíveis a distúrbios ambientais do que seus próprios hospedeiros (MARCOGLIESE 2005), que são observados através de mudanças na prevalência (número de hospedeiros parasitados dividido pelo número total de hospedeiros) e intensidade (número de parasitos de uma determinada espécie dividido pelo número de hospedeiros parasitados), bem como sua ocorrência ou abundância (NEGREIROS et al. 2018). Portanto, os inventários são a base para estudos parasitológicos, e determinar quais e quantas espécies fazem parte de um ecossistema é essencial para entender a diversidade e o funcionamento dos organismos (SEGALLA et al. 2021).

A realização de estudo sobre Endoparasitas e Ectoparasitas é fundamental para a preservação das espécies que desempenham importantes papéis ecológicos como serpentes, animais biocontroladores da população de roedores (BARBOSA et al. 2006) que, a priori, são seus alimentos naturais (MORAIS 1996) dentro da cadeia trófica. Outro exemplo prático é a produção de conhecimento que possa servir na produção de políticas voltadas a conservação das espécies, como o estudo de parasitismo com espécies ameaçadas de extinção.  Por exemplo, o estudo com Adelophryne maranguapensis Hoogmoed, Borges e Cascon 1994, uma espécie endêmica ameaçada de extinção da APA de Maranguape, Ceará, Nordeste do Brasil (UICN 2020), que está sob forte pressão da degradação antrópica, que faz dessa espécie mais vulnerável devido a características como as baixas densidades populacionais e distribuição restrita, tornando-a mais frágil e suscetível a mudanças no meio ambiente (ABRAHÃO & ESCARLATE-TAVARES 2019). Com esse estudo, é possível inferir que a baixa prevalência de parasitas em A. maranguapensis, apesar dos efeitos antrópicos em seu habitat, apresenta uma relação estável, demonstrando uma boa saúde imunológica da espécie. A relação negativa entre o parasitismo e o tamanho do corpo dos indivíduos, e a similaridade no parasitismo entre os sexos, indica que a espécie provavelmente compartilha o mesmo espaço ao longo do tempo e apresenta uma sobreposição no uso do habitat. Além disso, considerando o ciclo de vida dos parasitas, A. maranguapensis apresenta uma sobreposição alimentar e, consequentemente, estão expostos às mesmas probabilidades de infecção (OLIVEIRA et al. 2022). Esse é um exemplo claro e importante de como um estudo sobre parasitos pode explicar vários pontos sobre a ecologia de uma espécie.

Figura 2 – Adelophryne maranguapensis. Foto: Robson W. Ávila.

REFERÊCIAS

  1. ABRAHÃO, C.R., & ESCARLATE-TAVARES, F. (2019) Ameaças à Herpetofauna da Mata Atlântica nordestina. In: Abrahão, C.R., Moura, G.J.B., Freitas, M.A., & Escarlate-Tavares, F. (Org.) Plano de ação nacional para a conservação da herpetofauna ameaçada da Mata Atlântica nordestina. Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, ICMBio, Brasília, pp. 162-174.
  2. ARAUJO-FILHO, J.A., OLIVEIRA, C.R., ÁVILA, R.W., ROBERTO, I.J. & ALMEIDA, W.O. (2013). Lachesis muta (Surucucu, Atlantic Forest Bushmaster). Parasitism. Herpetological review, 44, 692.
  3. BARBOSA, A.R., SILVA, H., ALBUQUERQUE, H.N., & RIBEIRO, I.A.M. (2006). Contribuição ao estudo parasitológico de jibóias, Boa constrictor constrictor Linnaeus, 1758, em cativeiro. Revista de biologia e ciências da terra 6, 1-18.
  4. CAMPIÃO, K.M., RIBAS, A.C.A., SILVA, I.C., DALAZEN, G.T., & TAVARES, L.E.R. (2016) Anuran helminth communities from contrasting nature reserve and pasture sites in the Pantanal wetland, Brazil. Journal of Helminthology 91, 91-96.
  5. CATALANO, S.R., WHITTINGTON, I.D., DONNELLAN, S.C., & GILLANDERS, B.M.(2013) Parasites as biological tags to assess host population structure: Guidelines, recent genetic advances and comments on a holistic approach. International Journal for Parasitology: Parasites and Wildlife 3,220-226.
  6. IUCN (2020) The IUCN red list of threatened species. Version 2020-1. Accessible at: https://www.iucnredlist.org (last access on: 14/04/2021).
  7. KURIS, A.M. (2008) Ecosystem energetic implications of parasite and free-living biomass in three estuaries.Nature 454, 515-518.
  8. MARCOGLIESE, D.J.(2004) Parasites: small players with crucial roles in the ecological theatre. Ecohealth1, 151-164.
  9. MARCOGLIESE, D.J. (2005) Parasites of the superorganism: are they indicators of ecosystem health?. International journal for parasitology 35, 705-716.
  10. MORAIS, Z.M.B. (1996) Importância do estudo do Ofidismo no Brasil. Recife: UFPE, 55 p.
  11. NEGREIROS, L.P., PEREIRA, F.B., TAVARES-DIAS, M., & TAVARES, L.E. (2018) Community structure of metazoan parasites from Pimelodus blochii in two rivers of the Western Brazilian Amazon: same seasonal traits, but different anthropogenic impacts. Parasitology Research 117, 3791-3798.
  12. OLIVEIRA, C.R., LIMA, D.C., ÁVILA, R.W., & BORGES-NOJOSA, D.M. (2022). Endoparasites of Adelophryne maranguapensis Hoogmoed, Borges & Cascon, 1994 (Anura, Eleutherodactylidae), an endemic and threatened species from an altitude swamp in northeastern Brazil. Parasitology Research 121, 1053-1057.
  13. POULIN, R., & KRASNOV, B.R. (2010) Similarity and variability of parasite assemblages across geographical space. pp.115-128 in Morand, S. & Krasnov, B. R. (Eds.) The biogeography of hostparasite interactions. Oxford University, New York.
  14. POULIN, R., & MORAND, S. (2004) Parasite Biodiversity, Smithsonian Institution Books, Washington, D.C., USA.
  15. SEGALLA, M.V., BERNECK, B., CANEDO, C., CARAMASCHI, U., CRUZ, C.A.G., GARCIA, P.C.A., … & LANGONE, J.A. (2021) Brazilian Amphibians: List of Species. Herpetologia Brasileira 10, 121-216.
  16. VITT, L.J., & CALDWELL, J.P. (2009) Herpetology, an introductory biology of amphibians and reptiles. 3 ed. Elsevier, Amsterdam.
  17. WINDSOR, D.A. (1998) Controversies in parasitology, most of the species on Earth are parasites. International journal for parasitology 28, 1939-1941.

Serpentes do NUROF

Por Roberta da Rocha Braga

Você sabe que espécies de serpente fazem parte do plantel do NUROF e por quê?

Como muitos já sabem, o NUROF (Núcleo Regional de Ofiologia) é uma unidade do Centro de Ciências da Universidade Federal do Ceará que dá suporte a atividades acadêmicas como ensino, pesquisa e extensão universitária. Recebemos visitas do público em geral, ministramos palestras e treinamentos para público especializado e realizamos atividades de pesquisa ecológica, taxonômica, clínica e experimental. O prédio do NUROF fica no Campus do Pici e abriga a Coleção de Herpetologia (CHUFC) e um criadouro científico de répteis para exposição e pesquisa. Na exposição aberta ao público temos jiboia, salamanta, boitinga e cobra verde, espécies nativas da nossa Caatinga. Além dessas, temos algumas cobras do milho, cobrinhas exóticas coloridas muito populares como pets na América do Norte, que foram apreendidas pela Polícia Federal por entrar irregularmente no país e doadas ao NUROF (1,2). No plantel de pesquisa temos cascavéis e jararacas, serpentes peçonhentas nativas cuja ação farmacológica dos venenos é pesquisada na UFC e em várias universidades do Brasil e do mundo.

Nosso plantel de peçonhentas tem aumentado nos últimos dois anos, através de coletas de serpentes nativas em projetos de pesquisa de campo ou de resgates em áreas urbanas. Quando essas serpentes chegam ao núcleo, elas passam por uma avaliação física completa, são mensuradas, têm o sexo determinado e uma amostra de sangue coletado. Daí elas são colocadas em uma sala de quarentena, onde ficarão em observação por até 180 dias antes de seguirem para uma sala própria com outros indivíduos da mesma espécie ou grupo. Esse tempo de observação é necessário para se ter certeza de que a serpente recém-chegada não carrega alguma doença infectoparasitária que possa ser transmitida para as demais.

Em 2023 já recebemos duas cascavéis, que foram resgatadas de ambientes periurbanos na região metropolitana, onde ofereciam risco de acidentes ofídicos aos humanos e animais domésticos e corriam riscos de predação(3). Na última semana, elas passaram pela avaliação, o qual constatou estado clínico e escore corporal normais, e entraram no processo de quarentena. As fotos mostram a sequência de ações da avaliação clínica. Para ver o vídeo, acessem nosso perfil no Instagram (@nurofufc).

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    Referências

    1. Polícia apreende animais exóticos em Fortaleza. Disponível em https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/seguranca/policia-apreende-em-fortaleza-animais-silvestres-exoticos-da-australia-e-da-asia-1.3325568. Acesso em 03 março 2023.
    2. Cobras apreendidas nos correios de Fortaleza. Disponível em https://g1.globo.com/google/amp/ce/ceara/noticia/2020/07/28/tres-cobras-exoticas-sao-apreendidas-pela-receita-federal-dentro-de-encomendas-dos-correios-em-fortaleza.ghtml. Acesso em 03 março 2023.
    3. Bombeiros resgatam cobra cascavel no quintal de casa no interior do Ceará. Disponível em https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/ceara/amp/cobra-cascavel-e-resgatada-em-quintal-de-residencia-no-interior-do-ceara-assista-ao-video-1.3198679 . Acesso em 03 março 2023.

    Declínio de anfíbios na Mata Atlântica brasileira

    Por Roberta da Rocha Braga

    O declinio global das populações de anfíbios é um tema de grande preocupação na herpetologia mundial. Esse fenômeno tem sido atribuído a vários fatores, principalmente à epizootia de doenças infecciosas, como quitridiomicose e ranavirose, cujo aumento das prevalências e expansão de ocorrência estão relacionadas com desmatamento e mudanças climáticas (1).

    No Brasil, estudos sobre este tema vêm sendo realizado há décadas e têm registrado declínio de várias populações, com aumento de espécies ameaçadas enquanto outras são até consideradas já extintas em ambiente natural (3). No entanto, embora o fungo mortal Batrachochytrium dendrobatides (Bd) tivesse sido detectado em espécies da Mata Atlântica, da Caatinga e da Amazônia nos últimos 15 anos, somente há pouco tempo foi realmente relacionado às extinções ocorridas no Brasil (4).

    Um estudo recente, produzido por universidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, em parceria com universidades americanas e financiada por recursos públicos, reuniu importantes pesquisadores da área para revisar os registros populacionais de anfíbios na Mata Atlântica, importante hotspot de diversidade e conservação de anfíbios na América do Sul, de 1890 até 2020 (5). Foram revisadas 169 populações de 106 espécies distribuídas nas regiões sul e sudeste da Mata Atlântica, constatando o dobro de declínios relatados em estudos anteriores. Os pesquisadores conseguiram também definir que o pico dos declínios ocorreu no ano de 1979 e que o processo de recuperação das populações envolvidas poderia demorar até 30 anos, caso realmente ocorresse. Além disso, o trabalho ressaltou a importância do trabalho dos pesquisadores em herpetologia nas universidade para aumentar a amostragem de indivíduos nas coleções científicas, subsidiando dados relevantes para essa análise. Por fim, concluíram que atualmente vivemos uma fase que chamaram de “Efeito Lázaro”, na qual espécies consideradas extintas estão reaparecendo em seu ambiente natural, tanto no Brasil quanto em outras florestas neotropicais. Acreditam que, apesar de estar ocorrendo em um ritmo lento, essas espécies podem estar desenvolvendo uma resistência contra Bd e outros patógenos letais descritos, o que os tem ajudado a novamente reproduzir e aumentar suas populações.

    Estudos como esse têm a função de fornecer informações para planos de manejo e direcionamento para monitoramento de doenças e agravos que afetem os biomas e suas populações. Além disso, é indiscutível que essas conclusões somente são possíveis graças a incentivos governamentais à pesquisa, formação de pesquisadores, manutenção de coleções científicas e da estrutura acadêmica como um todo.

    Para aprofundar o conhecimento sobre este assunto, acesse a bibliografia consultada abaixo.

    1. SCHEELE, B. C., PASMANS, F., SKERRATT, L. F., BERGER, L., MARTEL, A., BEUKEMA, W., ACEVEDO, A. A., BURROWES, P. A., CARVALHO, T., CATENAZZI, A., DE LA RIVA, I., FISHER, M. C., FLECHAS, S. V., FOSTER, C. N., FRÍAS-ÁLVAREZ, P., GARNER, T. W. J., GRATWICKE, B., GUAYASAMIN, J. M., HIRSCHFELD, M., … CANESSA, S. (2019). Amphibian fungal panzootic causes catastrophic and ongoing loss of biodiversity. Science, 363(6434), 1459–1463. https://doi.org/10.1126/science.aav0379
    1. AMPHIBIAWEB. 2023. <https://amphibiaweb.org> University of California, Berkeley, CA, USA. Accessed 26 Feb 2023.
    1. IUCN. 2022. The IUCN Red List of Threatened Species. Version 2022-2. https://www.iucnredlist.org.
    1. CARVALHO, T.; BECKER, G.; TOLEDO, L.T.. Historical amphibian declines and extinctions in Brazil linked to chytridiomycosis. In: ANAIS DO CONGRESSO BRASILEIRO DE HERPETOLOGIA, 2017, . Anais eletrônicos… Campinas, Galoá, 2017. Disponível em:  https://proceedings.science/cbh/papers/historical-amphibian-declines-and-extinctions-in-brazil-linked-to-chytridiomycos?lang=pt-br .
    1. TOLEDO, L. F., DE CARVALHO-E-SILVA, S. P., DE CARVALHO-E-SILVA, A. M. P. T., GASPARINI, J. L., BAÊTA, D., REBOUÇAS, R., HADDAD, C. F. B., BECKER, C. G., & CARVALHO, T.  A retrospective overview of amphibian declines in Brazil’s Atlantic Forest. Biological Conservation, 277, 109845, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.biocon.2022.109845
    1. Scinax peixotoi in Brasileiro C A, Haddad C F B, Sawaya R J, Martins M, plazi (2007). A new and threatened species of Scinax (Anura: Hylidae) from Queimada Grande Island, southeastern Brazil. Plazi.org taxonomic treatments database. Checklist dataset https://doi.org/10.5281/zenodo.175251  accessed via GBIF.org on 2023-02-26.

    NUROF-UFC e o monitoramento de saúde da fauna da ARIE Matinha do Pici

    O Campus do Pici da Universidade Federal do Ceará (Fortaleza, Ceará) é cercado por um fragmento de mata nativa que foi oficializado como unidade de conservação pela Lei Municipal nº 10.463 de 31 de março de 2016, hoje conhecida como “Área de Relevante Interesse Ecológico Matinha do Pici” (AMP). Possui uma área total de 42,62 hectares, contendo o Açude Santo Anastácio e uma vegetação litorânea adjacente denominada mata de tabuleiro. A AMP serve de refúgio para fauna e flora relictuais e caracteriza-se como um dos últimos remanescentes florestais na metrópole de Fortaleza. Embora estando inscrita dentro de um ambiente urbano, abriga uma fauna nativa relativamente diversa, com 30 espécies de invertebrados, 22 de peixes, 12 de anfíbios, 31 de répteis (14 de serpentes, 14 de lagartos, 3 de quelônios), 75 de aves, e 20 de mamíferos (1). Essa fauna sofre importantes impactos devido à intensa antropização representada pela construção da estrutura física da UFC e pelo crescimento de comunidades periféricas em seu entorno.

    Animais da fauna livre da AMP. a) Sagüi (Callithrix jacchus); b) Jiboia (Boa constrictor)

    O NUROF-UFC vem desempenhando importante papel no monitoramento de saúde e agravos à fauna da AMP, em especial aos répteis e anfíbios. O resgate de serpentes, lagartos e quelônios das áreas urbanas e recolocação na AMP se tornou frequente em nossa rotina. De 2017 a 2020, 233 animais foram resgatados pela nossa equipe. Desses, 78,4% foram examinados e devolvidos à AMP; 11,6% foram encontrados mortos; 3,0% tiveram atenção veterinária mas foram a óbito, e 2,6% foram submetidos à eutanásia devido à impossibilidade de tratamento (2).

    Por conta dessa atuação, vários trabalhos de pesquisa vem sendo realizados, no formato de resumos científicos, monografias de conclusão de curso e artigos especializados. Um dos destaques dessa produção foi o trabalho de conclusão de curso do biólogo e mestrando Bruno Guilhon, que contabilizou a fauna atropelada dentro do Campus ao longo de 12 meses, registrando um total de 328 animais, distribuídos em 32 espécies e 22 famílias, sendo os anfíbios a maior amostragem (58%) (3). Outro foi o artigo em parceria com o biólogo e doutorando Rafael Ramos sobre exames pós-morte de répteis vítimas de trauma entre 2010 e 2020, no qual 34 répteis foram examinados e as causas de morte predominantes foram a predação por animais domésticos, seguidas por atropelamentos e predação por humanos (4). Recentemente, o trabalho de conclusão de curso do médico veterinário Renan Lima avaliou a saúde de uma amostra de anfíbios anuros da AMP, verificando alterações clínicas e hematológicas ligadas a doenças infecciosas possivelmente correlacionadas ao desequilíbrio ambiental no habitat desses indivíduos (5).

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    Coleta de sangue para avaliação de saúde de anfíbios da AMP (2022).

    A atuação da equipe do NUROF-UFC está gerando dados importantes que devem contribuir na elaboração do plano de manejo da AMP. Espera-se com isso que futuramente medidas concretas possam ser implementadas na proteção desta fauna e na preservação ambiental da área. Para saber mais sobre os casos investigados, acesse a bibliografia a seguir.

    Autora: Roberta da Rocha Braga, médica veterinária NUROF-UFC

    Referência bibliográfica

    UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ (UFC). Proposta de Plano de Manejo para a ARIE Matinha do Pici 2022.

    NÚCLEO REGIONAL DE OFIOLOGIA (NUROF-UFC). Relatórios de necrópsia de fauna silvestre 2010-2020.

    GUILHON, Bruno Ferreira. Fauna invisível: monitoramento da fauna atropelada no Campus do Pici. 2019. 28 f. Trabalho de conclusão de curso (Graduação em Ciências Biológicas) – Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2019. Disponível em http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/48364.

    BRAGA, R.R. RAMOS, A.R.L Traumatized Reptiles: A Retrospective Study of Wild Reptiles Examined in Northeastern Brazil. Acta Scientific Veterinary Sciences 3.10 (2021): 28-32. Disponível em https://actascientific.com/ASVS/pdf/ASVS-03-0218.pdf.

    LIMA, C.R.S Avaliação clínica e hematológica de anuros de vida livre como ferramenta de biomonitoramento. 2022. 25f. Trabalho de conclusão de curso (Graduação em Medicina Veterinária) – Unifametro, Fortaleza, 2022. Disponível em breve no https://repositorio.unifametro.edu.br/

    Conheça um pouco sobre o Chipojo-de-Palma, o gigante dos Anolis

    Os lagartos do gênero Anolis Daudin, 1802 têm uma distribuição Neotropical, sendo o Chipojo-de-Palma, Anolis equestris Merrem, 1820 (Squamata, Dactyloideae) (Hedges et al 2019), um lagarto endêmico de Cuba. Ele é caracterizado pelo grande tamanho corporal quando comparado a outras espécies do gênero, com um comprimento-rosto-cloacal médio de 16,2 cm (Schettino et al 2003), e com uma cauda tão longa quanto o corpo, um gigante dentre os anoles. O nome popular do Chipojo-de-Palma vem de seu marcado hábito arborícola em Palmas cubanas (Roystonea regia) e outras espécies de árvores. Sua coloração é verde escura em todo seu corpo na fase adulta, com uma raia verde clara, lateral e longitudinal por encima da cintura escapular (Fig. 01). Essa coloração reflete sua boa adaptação a viver no alto das árvores, o dossel. Isto facilita seu mimetismo com as folhas e o protege contra predadores (Schettino et al 2003).

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    Figura 1. Individuo macho do Chipojo-de-Palma, Anolis equestris. https://br.pinterest.com/pin/70298444169667315/

    O Chipojo-de-Palma tem uma distribuição que se estende desde La Mulata em Pinar del Rio, passando por Artemisa (Fig.2) até Santiago de Cuba (Schettino et al 2013). Pode também ser encontrado nas Bahamas, Turks e Caicos e na Florida, EUA, onde foi introduzido.

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    Figura 2. Mostra a localidade de São Antonio dos Baños, Artemisa, Cuba onde foi avistada o Chipojo de Palma, Anolis equestris

    Esses lagartos são diurnos e arborícolas e realizam quase a maioria de suas atividades nas árvores. Eles podem termorregular na parte mais alta do tronco da palma ou nos ramos das árvores, sempre buscando a luz solar que incida diretamente neles. Forrageiam pelas árvores também em busca de presas que pode variar desde insetos, aracnídeos, gastrópodes e até mesmo juvenis de outras espécies de lagartos e pererecas (Schettino et al 2003). Nesta espécie existe dimorfismo sexual sendo os machos (em média com 16,2 cm) maiores que as fêmeas (medindo em média 13,6 cm). Sua época de acasalamento coincide com a temporada úmida, onde os machos procuram as fêmeas no alto das árvores, no entanto este cruzamento foi registrado em alturas mais baixas do que é descrito na literatura (Fig. 3).  

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    Figura 3. Cruzamento de macho e fêmea do Chipojo-de-Palma, Anolis equestris. Fotografia de Olivia Gonzalez

    Se os machos se sentirem ameaçados podem mudar de cor e se esconder no lado oposto do tronco, fugir para as alturas mais altas, ou podem abrir a boca como expressão de ameaça, pois são agressivos e a mordida pode ferir pelas fileiras de dentes cônicos de sua boca (Schettino et al 2003). 

    Um dos mitos mais famosos nesta espécie é que os camponeses contam que quando um Chipojo desce da árvore é para beijar a terra. No entanto o motivo real para isso é que as fêmeas descem para ovopositar, enterrando os ovos a uma temperatura adequada (Schettino et al 2003). Uma vez que os ovos eclodem os filhotes instintivamente procuram uma árvore para subir, se refugiar e continuarem o ciclo de vida desta espécie. 

    Autores: Addinson Hernández, Ernesto Aranda e Oslaida Hernández

    Referência bibliográfica

    Blair Hedges,S., Powell, R., W. Henderson, R., Hanson, S., and C. Murphy. J.2019. Definition of the Caribbean Islands biogeographic region, with checklist and recommendations for standardized common names of amphibians and reptiles. Caribbean herpetology. 67, 1–53

    Rodríguez Schettino, L., Larramendi Joa, J.A., Sampedro Marín, A., Chamizo Lara et al. 2003. Anfibios y reptiles de Cuba. UPC Print, Vaasa, Finlandia.

    Rodríguez Schettino, L. Mancina, C. A.  Rivalta González, V.2013. Reptiles of Cuba:checklist and geographic distributions. Smithsonian Herpetological Information Service. 144

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