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Alcorão

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Alcorão
الْقُرْآن
BERJAYA
Dois fólios do manuscrito do Alcorão de Birmingham — um manuscrito antigo redigido na escrita hijazi em pergaminho, cuja datação por radiocarbono aponta para o período de cerca de 568–645, coincidindo com a vida de Maomé
Informação
ReligiãoIslamismo
LínguaÁrabe clássico
Período610–632 EC
Capítulos114 (lista)
Ver sura
Versos6,348 (incluindo bismilá)
6,236 (excluindo bismilá)
Ver Ayat
Texto completo

O Alcorão (em árabe: القرآن, transl. al-Qurʾān, lit. "a recitação") é o texto religioso central do islamismo, que os muçulmanos acreditam ser uma revelação diretamente de Deus (Alá). É organizado em 114 capítulos (sūrah, pl. suwar), que consistem em versículos individuais (āyah). Além de sua importância religiosa, é amplamente considerado a melhor obra da literatura árabe[1][2][3] e influenciou significativamente a língua árabe.

Os muçulmanos acreditam que o Alcorão foi revelado oralmente por Deus ao último profeta islâmico, Maomé, por meio do anjo Gabriel, gradualmente ao longo de cerca de 23 anos, começando na Laylat al-Qadr, quando Maomé tinha 40 anos, e terminando em 11 AH/632 d.C., ano de sua morte. Os muçulmanos consideram o Alcorão o mais importante milagre de Maomé, uma prova de sua condição de profeta e o ponto culminante de uma série de mensagens divinas iniciada com as reveladas ao primeiro profeta islâmico, Adão, incluindo os livros sagrados da Torá, dos Salmos e do Evangelho no islamismo. Os muçulmanos acreditam que o Alcorão seja a própria palavra divina de Deus, fornecendo um código completo de conduta para todos os aspectos da vida. Isso levou os teólogos muçulmanos a debater intensamente se o Alcorão foi "criado ou incriado". Segundo a tradição, vários companheiros de Maomé serviram como escribas, registrando as revelações. Pouco depois da morte de Maomé, o Alcorão foi compilado por ordem do primeiro califa, Abu Becre (r. 632–634), pelos companheiros que haviam escrito ou memorizado partes dele. O califa Otomão (r. 644–656) estabeleceu uma versão-padrão, hoje conhecida como códice utmânico, geralmente considerada o arquétipo do Alcorão conhecido atualmente. Existem, contudo, leituras variantes canônicas (qirāʾāt), transmitidas pela tradição oral, com pequenas variações de redação e nuance que podem levar a diferenças sutis de significado, preservando ao mesmo tempo a mensagem central do Alcorão. Ele é objeto de um campo moderno de pesquisa acadêmica conhecido como estudos corânicos. Alguns argumentam que evidências manuscritas, variantes textuais (como o manuscrito de Saná) e fontes históricas sugerem um processo de compilação e canonização mais gradual e complexo.

O Alcorão descreve a si próprio como um guia para a humanidade (2:185). Faz alusão a narrativas importantes encontradas no cânone bíblico e em textos apócrifos. Embora dedique espaço considerável a algumas dessas narrativas, não cita diretamente nenhum parágrafo dessas fontes, mas resume e utiliza versões diferentes de algumas delas em seções distintas. Teóricos islâmicos tendem a explicar essa situação pelo foco do Alcorão nas lições morais a serem extraídas dos acontecimentos. Esse estilo alusivo e a sumarização exigem muitos esforços explicativos (exegese). Para extrair o significado de determinado versículo corânico, os muçulmanos recorrem ao tafsir, ou comentário, muitas vezes em conjunto com traduções do texto. Além disso, os hádices, valorizados na maioria das escolas de pensamento islâmicas por seu papel no estabelecimento de leis islâmicas e regulamentos, são tradições orais posteriormente registradas por escrito e que se acredita refletirem as palavras e ações de Maomé, servindo como orientação adicional ao lado do Alcorão para a maioria dos muçulmanos. Durante as orações, o Alcorão é recitado apenas em árabe. Uma pessoa que memorizou todo o Alcorão é chamada de hafiz (no feminino, hafiza). Idealmente, os versículos são recitados com um tipo especial de prosódia reservado para esse propósito, chamado tajwid. É tradição entre alguns muçulmanos recitar o Alcorão inteiro durante as orações tarawih ao longo do mês do Ramadã.[4]

Etimologia e significado

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A palavra qur'ān aparece cerca de 70 vezes no próprio Alcorão,[5] assumindo vários significados. É um substantivo verbal (maṣdar) do verbo qara'a (قرأ), da língua árabe, que significa 'ele leu' ou 'ele recitou'. O equivalente em siríaco é qeryānā (ܩܪܝܢܐ), que se refere a 'leitura das escrituras' ou 'lição'.[6] Enquanto alguns estudiosos ocidentais consideram que a palavra deriva do siríaco, a maioria das autoridades muçulmanas sustenta que sua origem é o próprio qara'a.[7] De todo modo, ela já havia se tornado um termo árabe durante a vida de Maomé.[7] Um significado importante da palavra é o 'ato de recitar', como refletido em uma antiga passagem corânica: "Cabe a Nós reuni-lo e recitá-lo (qur'ānahu)."[8]

Em outros versículos, a palavra se refere a 'uma passagem individual recitada [por Maomé]'. Seu contexto litúrgico aparece em várias passagens, por exemplo: "Assim, quando o al-qur'ān for recitado, escutai-o e permanecei em silêncio."[9] A palavra também pode assumir o significado de uma escritura codificada quando mencionada com outras escrituras, como a Torá e o Evangelho.[10]

O termo também possui sinônimos estreitamente relacionados empregados em todo o Alcorão. Cada sinônimo tem seu próprio significado distinto, mas seu uso pode convergir com o de qur'ān em determinados contextos. Entre esses termos estão kitāb ('livro'), āyah ('sinal') e sūrah ('escritura'); os dois últimos também designam unidades de revelação. Na grande maioria dos contextos, geralmente com um artigo definido (al-), a palavra é referida como waḥy ('revelação'), aquilo que foi "enviado para baixo" (tanzīl) em intervalos.[11][12] Outras palavras relacionadas incluem dhikr ('lembrança'), usada para se referir ao Alcorão no sentido de recordação e advertência; e ḥikmah ('sabedoria'), que às vezes se refere à revelação ou a parte dela.[7][a]

O Alcorão descreve a si próprio como 'o discernimento' (al-furqān), 'o livro-mãe' (umm al-kitāb), 'o guia' (huda), 'a sabedoria' (hikmah), 'a lembrança' (dhikr) e 'a revelação' (tanzīl; 'algo enviado para baixo', significando a descida de um objeto de um lugar mais alto para um mais baixo).[13] Outro termo é al-kitāb ('O Livro'), embora também seja usado na língua árabe para outras escrituras, como a Torá e os Evangelhos. O termo mus'haf ('obra escrita') é frequentemente usado para se referir a manuscritos corânicos específicos, mas também é empregado no Alcorão para identificar livros anteriormente revelados.[7]

História

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Era profética

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A tradição islâmica relata que Maomé recebeu sua primeira revelação em 610 d.C., na caverna de Hira, na Laylat al-Qadr,[14] durante um de seus retiros solitários nas montanhas. Depois disso, recebeu revelações ao longo de 23 anos. O último versículo do Alcorão foi revelado no dia 18 do mês islâmico de Dulrija do ano 10 A.H, data que corresponde aproximadamente a fevereiro ou março de 632. O versículo foi revelado depois de Maomé concluir seu sermão em Gadir Cume.

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Tradicionalmente considerada a primeira revelação de Maomé, a sura al-Alaq, posteriormente colocada como a 96.ª na ordenação corânica, em estilo de escrita atual

Sahih al-Bukhari narra Maomé descrevendo as revelações assim: "Às vezes ela (wahy) é como o toque de um sino", e Aixa relatou: "Vi o Profeta sendo inspirado divinamente em um dia muito frio e notei o suor caindo de sua testa (quando a Inspiração terminou)."[b] "Um ser poderoso o ensinou."[16] Também expressões do Alcorão como "tornou-se claramente visível quando estava no horizonte mais alto. Então aproximou-se e desceu até ficar [à distância de] dois arcos ou ainda mais perto"[17] são associadas ao anjo da revelação nas interpretações tradicionais. O estudioso do islamismo Welch afirma na Encyclopaedia of Islam que essas convulsões teriam sido vistas por quem estava ao redor de Maomé como evidência convincente da origem sobre-humana de suas inspirações. Seus críticos, porém, acusavam-no de ser um homem possuído, um adivinho ou um mago, já que suas experiências eram semelhantes às atribuídas a figuras desse tipo bem conhecidas na Arábia antiga.[18]

As revelações tradicionalmente classificadas como "mecanas" constituem dois terços do Alcorão. Afirma-se que essas revelações foram transmitidas oralmente durante esse período e depois registradas nos anos que antecederam a Hégira, período referido como medinense (622–632).[19] O período mecano, assim como outras narrativas religiosas, é geralmente conhecido por sua dependência da tradição oral, inclusive em relação ao Alcorão. O estilo poético e a composição frequentemente repetitiva do Alcorão tal como o conhecemos hoje são vistos como consequência do método tradicional de comunicação oral desse período.[20] Acredita-se que o Alcorão tenha começado a ser escrito perto do fim do período mecano.[21] Segundo a tradição, alguns prisioneiros dos coraixitas capturados na Batalha de Badre tiveram a oportunidade de ser libertados depois de ensinar aos muçulmanos a escrita simples da época, e um grupo de muçulmanos tornou-se alfabetizado. Inicialmente transmitido oralmente, o Alcorão passou a ser registrado em tábuas, ossos e nas extremidades largas e planas de folhas de palmeira. A maioria das suras estava em uso entre os primeiros muçulmanos, pois é mencionada em numerosos relatos de fontes sunitas e xiitas, relativos ao uso que Maomé fazia do Alcorão no chamado ao islamismo, na realização da oração e na forma de recitação. Contudo, o Alcorão não existia em forma de livro quando Maomé morreu, em 632, aos 61–62 anos.[22][23][24][25][26] Há concordância entre os estudiosos de que o próprio Maomé não escreveu a revelação,[27] devido à descrição corânica de Maomé como "ummi".[28][c]

Compilação e preservação

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BERJAYA
Uma página do Alcorão da Ama, escrita em caligrafia cairuanesa. (1020 d.C.)

Visões tradicionais

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Segundo a tradição, após a morte de Maomé em 632, quando muitos de seus companheiros que haviam memorizado o Alcorão foram mortos por Muçailima na Batalha de Iamama, o primeiro califa, Abu Becre (r. 632–634), decidiu compilar o livro em um único volume para preservá-lo[30] e nomeou Zaíde ibne Tabite (m. 655) para a tarefa, pois ele era "a pessoa que registrava a revelação divina para o Mensageiro de Alá".[31] As dificuldades de Zaid em reunir o material corânico de pergaminhos, talos de folhas de palmeira, pedras finas[32] e de homens que o sabiam de cor são registradas em narrativas; junto com um grupo de amigos, ele produziu um rascunho do livro inteiro, que então apresentou a Abu Becre. Após a morte de Abu Becre, em 644, o mushaf foi entregue à viúva de Maomé, Háfeça binte Omar,[31] e permaneceu com ela até o terceiro califa, Otomão (reinado de 644–656), solicitar-lhe uma cópia-padrão.[33]

Por volta da década de 650, a expansão do islamismo para além da Península Arábica, em direção à Pérsia, ao Levante e ao Norte da África, e o estabelecimento de grandes guarnições militares tornaram necessária a coexistência, integração e adoração comunitária de soldados de diferentes tribos. Nesse período, surgiram conflitos entre os soldados devido a diferentes leituras do Alcorão, apresentadas pelos estudiosos islâmicos como o uso de sete formas (ahruf), e isso foi relatado a Otomão, que solicitou uma solução.[34][35][36][37] Assim, para preservar o texto sagrado, ele ordenou que um comitê chefiado por Zaid preparasse um texto-padrão, conhecido como códice utmânico, e que cópias fossem enviadas a vários centros urbanos.[38][39] Acredita-se também que outras versões (ou códices privados) do Alcorão tenham sido reunidas e destruídas por ordem de Otomão.[38][40][41][42] Segundo o historiador Michael Cook, os primeiros relatos muçulmanos sobre a reunião e compilação do Alcorão às vezes se contradizem.[43] A versão atual do texto corânico é aceita por estudiosos muçulmanos como a versão coraixita compilada por Abu Becre,[25][26][d] e codificada por Otomão; o Alcorão, que não é um livro estruturado segundo a ordem em que Maomé recebeu as revelações, tem sua coerência atual e ordem sequencial debatidas: alguns afirmam que elas foram alcançadas por revelação divina ainda durante a vida de Maomé, enquanto outros sugerem que resultaram de uma decisão de ijtihad (raciocínio jurídico) do comitê de Otomão.

BERJAYA
Alcorão — em Mexede, Irã — que se diz ter sido escrito por Ali

Os ahruf mencionados, que literalmente significam letras, são insistentemente enfatizados como diferentes das qira'at, termo que hoje se refere às diferentes pronúncias do rasm corânico, e parecem constituir um tema interessante, obscuro,[46] debatido[47] e de certo modo oculto.[48][49] Segundo alguns relatos, quando Otomão compilou seu códice oficial, baseou a escrita no dialeto coraixita e eliminou outros códices.[50][e] reunidos em diferentes regiões — e, portanto, esperados com dialetos locais distintos; isso sugere que os relatos pertinentes podem, na realidade, apontar para uma única questão que abrangia diferentes códices (variantes).[52] Embora os ahruf tenham sido inicialmente desprezados e criticados como criação humana, cinco séculos depois foram sacralizados ao serem vinculados a uma fonte divina.[53] Nenhuma das cópias variantes do Alcorão atribuídas a indivíduos como Abedalá ibne Maçude, Ubaie ibne Cabe e Abu Muça Alaxari, alguns dos quais se afirma terem sobrevivido até o século XI, existe hoje.[7][38][54] Os xiitas possuíam mais de mil hádices atribuídos aos imames xiitas que indicavam uma distorção do Alcorão,[55] e, segundo Etan Kohlberg, essa crença sobre o Alcorão era comum entre os xiitas nos primeiros séculos do islamismo.[56] Alegadas distorções teriam sido feitas para remover referências aos direitos de Ali, dos imames e de seus apoiadores, bem como a reprovação de inimigos como os omíadas e abássidas.[57][f]

Hoje, o ramo de estudo que se aprofunda nas várias leituras, diferentes relatos e escolas de leitura do Alcorão é chamado de "Ilm-al Qira'a" e, segundo alguns hádices, remonta à época de Maomé.[59] (Ver: dez recitações canônicas) Atualmente, os xiitas recitam o Alcorão segundo a qira'at de Hafs, com autoridade de 'Asim, que é a qira'at predominante no mundo islâmico,[60] e a visão xiita do Alcorão sustenta que ele foi reunido e compilado por Maomé durante sua vida.[61][62] O Alcorão moderno contém numerosos comandos ("ql", que significa "dize") que lhe conferem a imagem de uma palavra divina dirigida diretamente a Maomé. Michael Cook oferece uma explicação para esse fenômeno por meio da qira'a; nos textos originais (rasm), não havia distinção entre "dize" e "ele disse". Contudo, textos posteriores padronizaram a expressão "ql" (que pode ser lida tanto como "ele disse" quanto como "dize") para ser lida como "dize" em muitos lugares.[63]

Ausência de uma edição crítica do Alcorão

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Numerosos pesquisadores observaram que nunca houve um texto crítico do Alcorão baseado em evidências manuscritas e destinado a verificar a exatidão da transmissão.[64] O texto do Alcorão amplamente utilizado atualmente baseia-se em uma variante tradicional chamada recensão utmânica, e a ausência de análise rigorosa é vista como uma deficiência em comparação com outros textos, como o Antigo e o Novo Testamento, estudados por alguns séculos e devidamente reconstruídos.[64][65] O consenso geral entre especialistas é que reconstruções que utilizem os manuscritos mais antigos, e não tradições, deveriam fundamentar quaisquer alegações sobre a exatidão da preservação corânica.[64] Edições críticas são um procedimento padrão na reconstrução de qualquer texto secular ou religioso copiado à mão, para recuperar de modo confiável um original plausível próximo da intenção do autor, acompanhado de introduções e anotações que forneçam o contexto adequado.[65]

Estudos modernos

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O manuscrito de Birmingham mostra a escrita árabe esquelética da Basmala: "ٮسم الله الرحمں الرحىم", e é uma das mais antigas cópias sobreviventes de páginas do Alcorão

Os estudos corânicos são o estudo acadêmico do Alcorão. O campo utiliza e aplica um conjunto diversificado de disciplinas e métodos, como filologia, crítica textual, lexicografia, codicologia, crítica literária, religião comparada e crítica histórica.[66] Os estudos sobre o Alcorão raramente foram além da crítica textual[67][68] e não produziram um texto crítico que pudesse servir de base para uma reconstrução científica do texto corânico.[g]

Até o início da década de 1970, estudiosos não muçulmanos do islamismo geralmente aceitavam integralmente a narrativa tradicional — excluindo a origem divina.[70][30] Essas explicações não satisfizeram uma nova geração de pesquisadores; alguns estudiosos ocidentais questionam a exatidão dos relatos tradicionais sobre se o livro sagrado existia sob alguma forma antes da última década do século VII (Patricia Crone e Michael Cook);[71] e/ou argumentam que ele é um "coquetel de textos", alguns dos quais talvez existissem cem anos antes de Maomé, e que evoluiu (Gerd R. Puin),[71][72][73] ou foi redigido (J. Wansbrough),[74][75] para formar o Alcorão. Após a criação desse texto "canônico" padronizado, textos anteriores foram suprimidos, e todos os manuscritos existentes — apesar de suas numerosas variantes — parecem datar de uma época posterior à criação desse texto.[76] Segundo alguns pesquisadores, como John Wansbrough e Yehuda D. Nevo,[51] posteriormente classificados como historiadores críticos do islamismo, a canonização do Alcorão, mediante a unificação de "vários textos anteriores" em um único texto-padrão imutável e a eliminação dos demais, ocorreu ao longo de aproximadamente 200 anos.[h] Eles argumentaram que um método comum dentro da tradição islâmica era legitimar uma prática atribuindo-a a uma autoridade do passado que gozava de ampla aceitação popular. Embora a maioria das diferentes versões/leituras do texto corânico não seja mais transmitida, algumas ainda são.[77][78]

Desenvolvimento das recitações orais para um texto escrito

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Uma página do manuscrito de Saná. Possivelmente o mais antigo, mais bem preservado e mais abrangente documento arqueológico islâmico conhecido até hoje. A dupla camada revela acréscimos ao texto original e múltiplas diferenças em relação ao Alcorão atual

Estudiosos contemporâneos sustentam opiniões diversas sobre a formação, compilação e desenvolvimento do Alcorão, desde recitações orais até uma obra escrita.[79] Em geral, os estudiosos reconhecem que a existência de numerosas coleções de variantes, algumas delas significativas (por exemplo, com palavras diferentes), que sobreviveram até hoje, complica a noção de um texto utmânico "tradicional".[79] A edição árabe do Alcorão do Cairo de 1924 é a principal versão utilizada atualmente e segue a leitura do cufano Asim b. Bahdala, enquanto outras versões árabes variantes costumam ser ignoradas.[31] No Norte da África (exceto no Egito), utiliza-se a versão Warsh do Alcorão em árabe.[80]

Em 1972, em uma mesquita na cidade de Saná, no Iêmen, foram descobertos manuscritos "compostos por 12 mil fragmentos", posteriormente considerados o mais antigo texto corânico então conhecido.[i] Os manuscritos de Saná contêm palimpsestos, páginas de manuscritos das quais o texto foi lavado para que o pergaminho pudesse ser reutilizado. Contudo, o texto subjacente apagado e esmaecido (scriptio inferior) ainda é apenas perceptível.[83] O estudioso alemão Gerd R. Puin investiga esses fragmentos corânicos há anos. Sua equipe de pesquisa fez 35 mil fotografias em microfilme dos manuscritos, que ele datou do início do século VIII. Puin observou ordenações de versículos incomuns e diferentes, pequenas variações textuais e estilos raros de ortografia, e sugeriu que alguns pergaminhos eram palimpsestos reutilizados. Para Puin, isso implicaria um texto em evolução, em contraste com um texto fixo.[84]

Entre os manuscritos corânicos mais antigos, o manuscrito de Saná revelou numerosas variantes textuais notáveis, inclusive entre o subtexto e a edição-padrão do Cairo de 1924.[85] Alguns relatos sugerem que pelo menos quatro Alcorões diferentes, com diferenças significativas, escritos por Ubaie b. Cabe, Abedalá ibne Maçude, Abu Muça Alaxari e Micdade b. Alauade, eram amplamente usados no período inicial e apresentados pela tradição como pertencentes aos "companheiros de Maomé". Essas "diferenças significativas" entre os textos demonstrariam que um "problema sinótico" semelhante ao dos Evangelhos no cristianismo, em que diferentes fontes dependem de outras, também se aplica ao Alcorão. Por exemplo, o Alcorão apresenta internamente combinações de variantes, como a sura 55:46–60 versus a sura 55:62–76, com repetições colocadas em paralelo possivelmente a partir de duas variantes, e também a sura 26:176–90 e a sura 29:36–37 versus a sura 7:85–93 versus a sura 11:84–93.[79] Críticos textuais afirmam que a diversidade de variantes encontrada nas evidências manuscritas, a edição após a morte de Maomé, a história da transmissão do texto mostrando a destruição de variantes (por exemplo, pela queima), as primeiras tentativas de padronização (por exemplo, 653–705 d.C. e 936 d.C.), entre outros fatores, levam estudiosos a concluir que "nunca houve um único texto original do Alcorão".[65] A diversidade de conteúdos no Alcorão levou alguns estudiosos a sugerir que ele talvez tenha múltiplos autores e/ou editores.[86]

Para compreender o desenvolvimento inicial do Alcorão, foi realizado um levantamento de fontes não muçulmanas do período mais antigo do islamismo, que concluiu que os não muçulmanos não demonstram, em seus escritos, conhecimento de uma escritura muçulmana singular até o século VIII, o que significaria que o Alcorão não estava disponível ou fixado até aproximadamente essa época.[79][87] Além disso, fontes muçulmanas e não muçulmanas indicam que partes do Alcorão, como as suras A Vaca, As Mulheres e A Família de Imran, circulavam independentemente como obras separadas no século VIII.[79][87] Um exemplo recente de eliminação foi a destruição de um grande número de variantes do Alcorão anteriores a 1924, descartadas no rio Nilo para padronizar a edição árabe do Cairo de 1924, amplamente utilizada hoje.[88]

Também é possível que o conteúdo do Alcorão atual forneça informações sobre a geografia e a história em que o texto provavelmente foi escrito. Nos estudos corânicos, embora o conteúdo do Alcorão seja visto como geograficamente relacionado às regiões do Hejaz e não pertencentes ao Hejaz (norte da Arábia), ele é definido e classificado em um contexto histórico por fragmentos que apontam para origens religiosas e étnicas siríacas, rabínicas, arábicas, gregas e judaico-cristãs. Guillaume Dye acredita que o Alcorão pode ser um texto composto por tradições originárias de várias partes da Arábia, incluindo, mas não se limitando, ao Hejaz.[89] Conforme relatado nas narrativas,[90] algumas expressões hoje entendidas como obras arquitetônicas são usadas repetidamente no Alcorão e lançam luz sobre as datas de redação das expressões pertinentes, que se sabe terem continuado a ser usadas até a época de Alhajaje.[91][92][93] A data de construção da Masjid al-Haram, mencionada 16 vezes no Alcorão, é 78 AH,[94] e a construção da Masjid al-Aqsa coincide com o período de Abedal Maleque ou Alualide I.[j] Além disso, segundo uma interpretação externa natural dos versículos pertinentes, essas estruturas deveriam estar a uma caminhada noturna de distância uma da outra.[k][l] A ortodoxia islâmica moderna situa essas estruturas em cidades como Meca e Jerusalém, a milhares de quilômetros do local de onde Maomé teria voado miraculosamente.Sura Al-Isra 17:1 (Ver também: Bakkah)

Conteúdo

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O conteúdo corânico trata de crenças islâmicas básicas, entre elas a existência de Deus e a ressurreição. Narrativas dos primeiros profetas, temas éticos e jurídicos, acontecimentos históricos da época de Maomé, caridade e oração também aparecem no Alcorão. Os versículos corânicos contêm exortações gerais sobre o certo e o errado, e acontecimentos históricos são relacionados para delinear lições morais gerais.[107] O estilo do Alcorão foi chamado de "alusivo", exigindo comentários para explicar a que se refere — "os acontecimentos são mencionados, mas não narrados; divergências são debatidas sem serem explicadas; pessoas e lugares são mencionados, mas raramente nomeados".[108] Enquanto o tafsir, nas ciências islâmicas, expressa o esforço para compreender as expressões sugeridas e implícitas do Alcorão, o fiqh refere-se aos esforços para ampliar o significado das expressões, especialmente nos versículos relacionados aos preceitos, bem como para compreendê-los.[109]

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Salomão, filho de Davi, rei de Judá, mandou construir seu templo, que ainda hoje é objeto de disputas interculturais de patrimônio, sob o nome de Al-Aqsa,[110] e, segundo a Bíblia, colocou ali diferentes ídolos para suas esposas de várias nacionalidades.[111] Aqui ele encontra a figura lendária Bilquis, em obra de Edward Poynter, 1890

Os estudos corânicos afirmam que, no contexto histórico, o conteúdo do Alcorão está relacionado às literaturas rabínica, judaico-cristã, cristã siríaca e helênica, bem como à Arábia pré-islâmica. Muitos lugares, temas e figuras mitológicas da cultura dos árabes e de numerosas nações de seu entorno histórico, especialmente histórias judaico-cristãs,[112] estão incluídos no Alcorão por meio de pequenas alusões, referências ou, às vezes, narrativas breves, como jannāt ʿadn, jahannam, Sete Adormecidos, Rainha de Sabá etc. As histórias de Iúçufe e Zulaica, Moisés, da Família de Anrão (pais de Maria, segundo o Alcorão) e do herói misterioso[113][114][115][116] Dhul-Qarnayn ("o homem de dois chifres"), que construiu uma barreira contra Gogue e Magogue que permanecerá até o fim dos tempos, são histórias mais detalhadas e longas. Além de acontecimentos e personagens semihistóricos como rei Salomão e Davi, sobre a história judaica, bem como o êxodo dos israelitas do Egito, relatos dos profetas hebreus aceitos no islamismo, como a Criação, o Dilúvio, a luta de Abraão contra Ninrode e o sacrifício de seu filho, ocupam amplo espaço no Alcorão.

Alguns filósofos e estudiosos, como Mohammed Arkoun, que enfatizam o conteúdo mitológico do Alcorão, encontram atitudes de rejeição em círculos islâmicos.[117] Em resposta ao fato de que as pessoas mencionadas não correspondem a figuras historicamente conhecidas, alguns comentaristas modernos sugeriram que elas deveriam ser entendidas como figuras representativas de determinados tipos de personagem, e não como pessoas reais.[118] Além disso, considerando as conclusões da escola revisionista de estudos islâmicos, é evidente que a expressão de certos conceitos narrativos no Alcorão que se referem a lugares, pessoas e acontecimentos (como coraixitas, Ababil e Abu Laabe) em uma única palavra ou poucas frases curtas exigirá novas interpretações e significados distintos da narrativa tradicional dentro desse quadro de compreensão.[119] (ver: hermenêutica corânica, Harut and Marut)

Criação e Deus

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O tema central do Alcorão é o monoteísmo. Deus é retratado como vivo, eterno, onisciente e onipotente (ver, por exemplo, Alcorão 2:20, 2:29, 2:255). Ele é o criador de tudo, dos céus e da Terra e do que existe entre eles (ver, por exemplo, Alcorão 13:16, 2:253, 50:38, etc.). Todos os seres humanos são iguais em sua dependência absoluta de Deus, e seu bem-estar depende de reconhecerem esse fato e viverem de acordo com ele.[25][107] O Alcorão utiliza argumentos cosmológicos e de contingência em vários versículos, sem empregar esses termos, para provar a existência de Deus; o universo teve uma origem e, portanto, necessita de um originador, pois tudo o que existe deve ter uma causa suficiente para sua existência. O desenho do universo é frequentemente apresentado como objeto de contemplação: "Foi Ele quem criou sete céus em harmonia. Não podes ver falha alguma na criação de Deus; então olha novamente: consegues ver alguma imperfeição?"[120][121]

BERJAYA
A palavra 'Alá' em árabe, em caligrafia islâmica. A maioria considera que ela deriva de uma contração do artigo definido al- e de ilāh, "deus", significando "o Deus".[122]

""O Alcorão insiste que Maomé e seus seguidores adoram o mesmo Deus que os judeus (29:46). O Alá do Alcorão é o mesmo Deus Criador que estabeleceu aliança com Abraão." Francis Edward Peters afirma que o Alcorão apresenta Alá como mais poderoso e mais distante do que Javé, e como uma divindade universal, ao contrário de Javé, que acompanha de perto os israelitas.[123] Contudo, Javé nunca é usado para Deus no Alcorão e nos textos islâmicos; Rabb, por sua vez, é uma palavra árabe usada para se referir a Deus e significa Senhor,[124] e o Alcorão a emprega em vários lugares, como em Al-Fatiha: "Todo louvor e gratidão são devidos a Deus, Senhor de todo o Universo".

Embora os muçulmanos não duvidem da existência e da unicidade de Deus, podem ter adotado atitudes diferentes, que mudaram e se desenvolveram ao longo da história, em relação à sua natureza (atributos), aos nomes e à relação com a criação. Em contraste com o politeísmo árabe pré-islâmico, como afirma Gerhard Böwering, Deus no islamismo não possui associados ou companheiros, nem há qualquer parentesco entre Deus e os jinn.[125] Os árabes pré-islâmicos acreditavam em um destino cego, poderoso, imparável e insensível sobre o qual o ser humano não tinha controle. Isso foi substituído pela crença islâmica no controle, por um Deus poderoso porém benevolente e misericordioso, sobre a vida humana.[7] Nos primeiros períodos do islamismo, o conceito de Deus foi estabelecido como uma divindade pessoal[126] vivendo nos céus.[127] Essa compreensão desenvolveu-se ao longo do tempo sob influência da teologia islâmica, adquirindo caráter transcendente.[128] Contudo, em contraste com essa concepção transcendente e absoluta de Deus estabelecida entre as elites,[129] o público e os sufis[m] mantiveram a compreensão tradicional de Deus. Além disso, ações e atributos semelhantes aos humanos empregados para esse Deus no Alcorão, como vir, ir, sentar-se, satisfação, raiva e tristeza etc., foram considerados mutashabihat — "ninguém conhece sua interpretação exceto Deus" (Alcorão 3:7) — por estudiosos posteriores que afirmavam que Deus era livre de qualquer semelhança com os seres humanos.[n] Mustafa Öztürk destaca, a esse respeito, as seguintes palavras de Amade ibne Hambal: "Quem disser que Alá está em toda parte é herege, infiel. Deve ser convidado a arrepender-se; se não o fizer, deve ser morto." Essa compreensão muda posteriormente e dá lugar à ideia de que "não se pode atribuir um lugar a Deus e Ele está em toda parte".[127]

Histórias proféticas

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No islamismo, Deus fala com pessoas chamadas profetas por meio de um tipo de revelação chamado wahy, ou por meio de anjos. (42:51) nubuwwah (em árabe: نبوة 'condição profética') é vista como uma missão imposta por Deus a indivíduos que possuem certas características, como inteligência, honestidade, firmeza e justiça: "Nada te é dito que não tenha sido dito aos mensageiros antes de ti: teu Senhor possui, sob Seu comando, perdão e também uma punição severíssima."[134]

O islamismo considera Abraão um elo na cadeia de profetas que começa com Adão e culmina em Maomé por meio de Ismael,[135] e ele é mencionado em 35 capítulos do Alcorão, mais frequentemente do que qualquer outra figura bíblica, exceto Moisés.[136] Os muçulmanos o consideram um hanif,[137] um arquétipo do muçulmano perfeito, além de profeta venerado e construtor da Caaba em Meca.[138] O Alcorão refere-se consistentemente ao islamismo como 'a religião de Abraão' (millat Ibrahim).[139] No islamismo, o Eid-al-Adha é celebrado em memória da tentativa de Abraão de sacrificar seu filho, ao submeter-se ao que vira em sonho (As-Saaffat; 100–107), que aceitou como a vontade de Deus.[140]

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Asiya e suas servas encontrando o bebê Moisés no Nilo, no Jami' al-tawarikh; possivelmente uma ficção piedosa[141] que segue os passos dos relatos sobre Sargão da Acádia.[o][143][144] É parte dos mitos fundadores dos israelitas, que são amplamente abordados no Alcorão

No islamismo, Moisés é um profeta e mensageiro de Deus de grande destaque e o indivíduo mencionado com maior frequência no Alcorão, com seu nome aparecendo 136 vezes e sua vida sendo narrada e recontada mais do que a de qualquer outro profeta.[145][146] Ao contrário das centenas de referências no Alcorão às histórias de profetas como Moisés e Jesus, ele fornece muito pouca informação sobre o próprio Maomé,[147][148] sobre seus companheiros[149] ou contemporâneos. Os indivíduos a quem pertencem as expressões usadas nas polêmicas corânicas e os contextos em que foram empregadas aparecem apenas como notas em comentários escritos em séculos posteriores. Uma exceção é seu escravo/filho adotivo Zaíde, cujo nome é mencionado nos versículos (Al-Aḥzāb; 37) no contexto de sua esposa divorciada ter sido tomada em casamento por Maomé. Provavelmente o relato biográfico mais claro sobre Maomé no Alcorão é a breve menção ao estabelecimento de seus seguidores em Iatrebe após serem expulsos pelos coraixitas, e a confrontos militares como a vitória muçulmana em Badre.[149]

As histórias dos profetas no Alcorão frequentemente giram em torno de determinado padrão, segundo o qual um profeta é enviado a um grupo de pessoas, que então o rejeita ou o ataca e, por fim, sofre extinção como punição de Deus. Contudo, dado seu caráter parenético, o Alcorão não oferece uma narrativa completa; em vez disso, faz uma referência parabólica à ruína de gerações anteriores, pressupondo que o público conheça as histórias narradas.[150]

Conceitos ético-religiosos

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Embora a crença em Deus e a obediência aos profetas sejam a principal ênfase das histórias proféticas,[151] há também histórias não proféticas no Alcorão que enfatizam a importância da humildade e de possuir um conhecimento interior profundo (hikmah), além da confiança em Deus. Esse é o tema principal das histórias de Khidr, Luqman e Dul-Carnaim. Segundo atribuições posteriores a essas histórias, é possível que aqueles dotados desse conhecimento e de apoio divino ensinem os profetas (história de Khidr e Moisés em Quran 18:65–82) e empreguem gênios (Dul-Carnaim). Aqueles que "gastam suas riquezas" com pessoas necessitadas por terem dedicado suas vidas ao caminho de Alá e cuja situação é desconhecida porque têm vergonha de pedir serão recompensados por Alá. (Al Baqara; 272–274) Na história de Qārūn, a pessoa que, com sua riqueza, evita buscar a vida após a morte e se torna arrogante será punida; a arrogância convém apenas a Deus. (Al Mutakabbir) Os personagens das histórias podem ser míticos obscuros (Khidr),[152][153] semimíticos ou personagens combinados, e também se pode observar que são islamizados. Embora alguns acreditem que ele tenha sido profeta, alguns pesquisadores equiparam Luqman a Alcmeão de Crotona[154] ou a Esopo.[155]

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Miniatura persa islâmica de Jibril protegendo Ibraim do fogo de Ninrode.
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Sacrifício do filho de Ibraim. Narrativas corânicas que influenciam concepções islâmicas: anti-idolatria, Qurban, e circuncisão.

Ordenar o ma'ruf e proibir o munkar (ár. ٱلْأَمْرُ بِٱلْمَعْرُوفِ وَٱلنَّهْيُ عَنِ ٱلْمُنْكَرِ) é repetido ou referido em quase 30 versículos, em diferentes contextos no Alcorão, e constitui hoje uma parte importante da doutrinação islamista / jihadista, bem como dos ensinamentos xiitas.[156]

Embora uma tradução comum da expressão seja "ordenar o bem e proibir o mal", as palavras empregadas pela filosofia islâmica para determinar o bem e o mal nos discursos são "husn" e "qubh". A palavra ma'ruf significa literalmente "conhecido" ou aquilo que é aprovado por ser familiar a determinada sociedade, enquanto seu antônimo, munkar, significa aquilo que é desaprovado por ser desconhecido e estranho.[157]

O Alcorão é uma das fontes fundamentais do direito islâmico (xaria). Algumas práticas religiosas formais recebem atenção significativa no Alcorão, incluindo a salat e o jejum no mês do Ramadã. Quanto à maneira como a oração deve ser realizada, o Alcorão faz referência à prostração.[30][158] O termo escolhido para caridade, zacate, significa literalmente purificação, implicando que se trata de uma autopurificação.[159][160] No fiqh, o termo fard é usado para disposições imperativas claras baseadas no Alcorão. Contudo, não é possível afirmar que os versículos pertinentes sejam entendidos da mesma forma por todos os segmentos de comentaristas islâmicos; por exemplo, os hanafitas consideram as cinco orações diárias como fard. Entretanto, alguns grupos religiosos, como os coranistas e os xiitas, que não duvidam de que o Alcorão existente hoje seja uma fonte religiosa, inferem dos mesmos versículos que se ordena claramente rezar duas ou três vezes,[161][162][163][164] e não cinco vezes. Cerca de seis versículos tratam da forma como uma mulher deve se vestir em público;[165] alguns estudiosos muçulmanos consideram que esse versículo se refere ao hijab,[166] enquanto outros o entendem como referência às vestimentas em geral.[167][p]

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Vestimentas antigas de mulheres árabes (livres); podem oferecer pistas para compreender algumas ênfases do Alcorão relacionadas ao Urf, como ma'ruf e munkar, bem como a sunna e a bid'a, a respeito das vestimentas femininas consideradas adequadas.[q][r]

Pesquisas mostram que os rituais presentes no Alcorão, juntamente com leis como o qisas[170] e o tributo (zacate), desenvolveram-se como uma evolução de rituais da Arábia pré-islâmica. Palavras árabes que significam peregrinação (haje), oração (salá) e caridade (zacate) podem ser vistas em inscrições safaítas-árabes pré-islâmicas,[171] e essa continuidade pode ser observada em muitos detalhes, especialmente no haje e na umrah.[172]

Como fonte de direito e julgamento

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Um pequeno número de versículos do Alcorão trata de regras gerais de governo, herança, casamento e crime e punição. Embora o Alcorão não imponha um sistema jurídico-administrativo específico, enfatiza o costume em quase 40 versículos e ordena a justiça. (An-Nahl; 90) As práticas prescritas no Alcorão são consideradas reflexos de entendimentos jurídicos contextuais, como se pode ver claramente em exemplos como Qisas e Diya.[173][174] Considera-se que a seguinte declaração do Alcorão seja a regra geral do testemunho no direito islâmico, exceto em matéria de crime e punição — por exemplo, dívidas, compras etc.: "Ó crentes! Quando contrairdes um empréstimo por um prazo determinado, registrai-o por escrito... com justiça. Chamai dois de vossos homens para testemunhar. Se não forem encontrados dois homens, então um homem e duas mulheres de vossa escolha testemunharão, de modo que, se uma das mulheres esquecer, a outra possa lembrá-la."[175][Alcorão 4:11][176]

Como outro exemplo, na história do colar de Aixa, considerada Asbab al-Nuzul da sura An-Nur:11–20, eram exigidas quatro testemunhas para a acusação de adultério. Além disso, aqueles que fizessem acusações sem atender às condições especificadas seriam punidos com 80 açoites. A jurisprudência de períodos posteriores estipula que as testemunhas devem ser homens, abrangendo todos os crimes hadd, e que pessoas sem credibilidade e honestidade na sociedade (escravos, não-adl; pecadores, infiéis) não poderiam testemunhar contra crentes.[177] Além disso, o judiciário islâmico não exigia prova para as questões definidas como tazir.[174]:45 A declaração do Alcorão que determina a condição dos escravos na comunidade é Ma malakat aymanuhum,[178] que significa "aqueles que vossas mãos direitas possuem". O uso disseminado da escravidão no mundo islâmico continuou até o século passado,[s] e o uso sexual irrestrito de escravas, com algumas exceções, como a proibição de emprestá-las[t] na jurisprudência islâmica tradicional, embora hoje se afirme com frequência que a xaria concede muitos direitos aos escravos e visa erradicar a escravidão ao longo do tempo.

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Mercado de escravos do século XIII, Iêmen. Mustafa Öztürk, seguindo os passos de Fazlurrahman, argumenta que os versículos foram revelados em um contexto histórico e que as normas deles derivadas não fazem parte da essência nem dos objetivos da religião; escravos e escravas eram considerados propriedade dentro do quadro derivado dos versículos corânicos;[183][184] seus senhores podiam libertá-los, vendê-los, legá-los, compartilhá-los ou alugá-los.[185] Öztürk acrescenta o ijtihad de Al-Sarakhsi, segundo o qual a paternidade da criança nascida nessa situação poderia ser determinada por sorteio, e pergunta: há alguém entre vocês que possa aceitar esse entendimento hoje?[186]

A xaria é um conjunto de leis e regras criado pelas interpretações dos estudiosos sobre o Alcorão e as coleções de hádices e desenvolvido ao longo dos séculos, variando conforme diferentes geografias e sociedades. As escolas de fiqh são escolas de entendimento que procuram determinar as ações que as pessoas devem praticar ou evitar com base no Alcorão e nos hádices. O lugar dos hádices na legislação é controverso; por exemplo, na escola hanafita, para afirmar que algo é obrigatório, a questão deve estar claramente expressa no Alcorão. Alguns desses resultados também podem indicar exagero de afirmações, generalizações retiradas do contexto e ampliação imperativa do escopo.[p] Dos poucos casos penais apresentados como crimes no Alcorão, apenas alguns são punidos nos livros clássicos de xaria conforme determinado pelos versículos corânicos e são chamados de leis hudud. A maneira como deve ser entendido o versículo 33 de Almaida, que descreve o crime de hirabah, continua sendo objeto de debate.[187] O versículo fala da punição dos criminosos por morte, enforcamento, amputação das mãos e dos pés em lados opostos e exílio da terra, em resposta a um crime abstrato como "lutar contra Alá e Seu Mensageiro". Ampliar ou restringir as condições e o alcance desse crime segundo novas situações e padrões jurídicos universais são questões que continuam sendo debatidas hoje,[187] como a punição, além da rebelião contra o governo legítimo, de "atos criminosos concretos e sequenciais", isto é, massacre, roubo e estupro, como pré-condições.

Embora as constituições da maioria dos Estados de maioria muçulmana contenham referências à xaria, em alguns deles suas regras são em grande parte preservadas apenas no direito de família e no direito penal. O renascimento islâmico do fim do século XX trouxe apelos, por parte de movimentos islâmicos, à aplicação integral da xaria, incluindo penas corporais como o apedrejamento por adultério,[188][189] por meio de vários métodos de propaganda, desde atividades políticas cívicas até o terrorismo islâmico.

Escatologia

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A doutrina do último dia e da escatologia (o destino final do universo) pode ser considerada a segunda grande doutrina do Alcorão.[25] Estima-se que aproximadamente um terço do Alcorão seja escatológico, tratando da vida após a morte no outro mundo e do dia do juízo no fim dos tempos.[190] O Alcorão não afirma uma imortalidade natural da alma humana, pois a existência do homem depende da vontade de Deus: quando Ele quer, faz o homem morrer; e, quando quer, o ressuscita em uma ressurreição corporal.[158]

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Mapa de Pierre Daniel Huet (1700), localizando o Jardim do Éden conforme descrito em Gênesis 2:10–14:[191] também mencionado pelo mesmo nome (jannāt ʿadn) no Alcorão, com a diferença de que não era o lugar para onde Adão e Eva foram enviados à Terra, mas o jardim prometido aos crentes após a morte. (Al-Kahf;30–31)

No Alcorão, a crença na vida após a morte é frequentemente mencionada em conjunto com a crença em Deus: "Crede em Deus e no último dia",[192] enfatizando que aquilo que é considerado impossível é fácil aos olhos de Deus. Diversas suras, como 44, 56, 75, 78, 81 e 101, estão diretamente relacionadas à vida após a morte e advertem as pessoas a se prepararem para o dia "iminente", referido de várias maneiras. É "o Dia do Juízo", "o Último Dia", "o Dia da Ressurreição" ou simplesmente "a Hora". Com menor frequência, é "o Dia da Distinção", "o Dia da Reunião" ou "o Dia do Encontro".[25]

Embora a maioria dos temas conhecidos como "sinais do apocalipse" na escatologia islâmica se baseie em fontes não corânicas, algumas referências no Alcorão foram frequentemente entendidas como termos apocalípticos, como fitna,[193][194] Dabba e Gogue e Magogue.[194] Na época das conquistas mongóis, ibne Catir identificou estes últimos com os turcos e mongóis históricos.[194] Os escritos apocalípticos apresentam com frequência figuras extracorânicas como o Dajjāl (correspondente a Armilos e ao Anticristo) e o Mádi.[194][195][193] Supõe-se que o Dajjāl se torne causa de desorientação e provoque devastação na Terra, mas acaba sendo detido pelo Mádi ou por Issa (Jesus), que retorna do céu à Terra.[196][197]

Quando chega o tempo do apocalipse — narrado em forma poética —, o Sol é enrolado, as estrelas caem, os mares são incendiados, as montanhas são movidas, as pessoas fogem aterrorizadas e mulheres grávidas abortam. (At-Takwir 1–7) Então é estabelecida uma praça e o rei ou senhor do dia (māliki yawmi-d-dīn)[u] vem e mostra sua canela;[198][199] os olhares ficam aterrorizados e os reunidos na praça são convidados a se prostrar; (Al-Qalam 42–43) pergunta-se por que as meninas inocentes foram mortas. (At-Takwir 8–9)

Texto e organização

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O Alcorão consiste em 114 capítulos de extensão variável, conhecidos como uma sura. Cada sura consiste em versículos, conhecidos como ayat, termo que originalmente significa um 'sinal' ou 'evidência' enviado por Deus. O número de versículos varia de uma sura para outra. Um versículo individual pode ter apenas algumas letras ou várias linhas. O número total de versículos no mais popular Alcorão de Hafs é 6.236;[v] contudo, o número varia se as bismilás forem contadas separadamente. Segundo uma estimativa, o Alcorão contém 77.430 palavras, 18.994 palavras únicas, 12.183 radicais, 3.382 lemas e 1.685 raízes.[201]

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Belqeys, a Rainha de Sabá, uma das figuras lendárias[202] da Bíblia, cuja história é contada sem que ela seja nomeada no Alcorão,[203] deitada em um jardim, diante de uma poupa, mensageira de Salomão. Miniatura persa (c. 1595)

Os capítulos são classificados como mecanos ou medinenses, conforme, no relato tradicional, os versículos tenham sido revelados antes ou depois da migração de Maomé para a cidade de Medina. Contudo, uma sura classificada como medinense pode conter versículos mecanos e vice-versa. Os nomes das suras derivam de um nome ou personagem do texto, ou das primeiras letras ou palavras da sura. Os capítulos não estão organizados em ordem cronológica; em vez disso, parecem estar dispostos aproximadamente em ordem decrescente de tamanho.[204] Cada sura, exceto a nona, começa com a bismilá (بِسْمِ ٱللَّٰهِ ٱلرَّحْمَٰنِ ٱلرَّحِيمِ), frase árabe que significa 'Em nome de Deus'. Há, contudo, 114 ocorrências da bismilá no Alcorão, devido à sua presença no Alcorão 27:30 como início da carta de Salomão à Rainha de Sabá.[205][206]

As Muqattaʿat (em árabe: حروف مقطعات ḥurūf muqaṭṭaʿāt, 'letras separadas, letras desconectadas';[207] também 'letras misteriosas')[208] são combinações de uma a cinco letras árabes que aparecem no início de 29 dos 114 capítulos do Alcorão, logo após a basmala.[208] As letras também são conhecidas como fawātih (فواتح), ou 'aberturas', pois formam o versículo inicial de suas respectivas suras. Quatro suras recebem o nome de suas muqatta'at: Ṭāʾ-Hāʾ, Yāʾ-Sīn, Ṣād e Qāf. Diversas teorias foram propostas: seriam uma linguagem secreta de comunicação entre Alá e Maomé, abreviações de vários nomes ou atributos de Alá,[209][210] símbolos das versões do Alcorão pertencentes a diferentes companheiros, elementos de um sistema secreto de codificação,[211] ou expressões contendo significados esotéricos.[212] Alguns pesquisadores as associam a hinos usados no cristianismo siríaco.[213] As expressões teriam feito parte desses hinos ou seriam abreviações de fórmulas introdutórias repetidas com frequência.[214][215] Algumas delas, como Nun, eram usadas com significados simbólicos.[216]

Além da divisão em capítulos, há várias maneiras de dividir o Alcorão em partes de extensão aproximadamente igual para facilitar a leitura. Os 30 juz' (plural ajzāʼ) podem ser usados para ler todo o Alcorão em um mês. Um juz' às vezes é subdividido em dois ḥizb (plural aḥzāb), e cada hizb é subdividido em quatro rubʻ al-ahzab. O Alcorão também é dividido em sete partes aproximadamente iguais, manzil (plural manāzil), para ser recitado em uma semana.[7] Outra estrutura é fornecida por unidades semânticas semelhantes a parágrafos e compostas por aproximadamente dez āyāt cada. Essa seção é chamada de ruku.

Estilo literário

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Meninos estudando o Alcorão em Touba, Senegal

A mensagem do Alcorão é transmitida por diversas estruturas e recursos literários. No árabe original, as suras e os versículos empregam estruturas fonéticas e temáticas que auxiliam o público a recordar a mensagem do texto. Muçulmanos, como Dr. Mustafa Khattab em sua obra The Clear Quran, afirmam, segundo o próprio Alcorão, que o conteúdo e o estilo corânicos são inimitáveis.[217]

A linguagem do Alcorão tem sido descrita como "prosa rimada", pois participa tanto da poesia quanto da prosa; contudo, essa descrição corre o risco de não transmitir a qualidade rítmica da linguagem corânica, que é mais poética em algumas partes e mais semelhante à prosa em outras. A rima, embora encontrada em todo o Alcorão, é marcante em muitas das suras mecanas mais antigas, nas quais versículos relativamente curtos dão destaque às palavras rimadas. A eficácia dessa forma é evidente, por exemplo, na Sura 81, e não há dúvida de que essas passagens impressionaram a consciência dos ouvintes. Frequentemente, uma mudança de rima de um conjunto de versículos para outro sinaliza uma mudança no assunto discutido. Seções posteriores também preservam essa forma, mas o estilo é mais expositivo.[218][219]

Hoje, o texto corânico contém numerosas expressões ('ql', que significa "dize") que criam a imagem de uma palavra divina direta ordenando Maomé. Michael Cook observou um aspecto desse fenômeno. Nos textos originais (Rasm), não havia distinção entre "dize" e "ele disse". Contudo, textos posteriores padronizaram a expressão "ql" (que pode ser lida tanto como "ele disse" quanto como "dize") para ser lida como "dize" em muitos lugares.[63] (Segundo o estilo atual de leitura, a palavra "Dize" aparece ao todo 332 vezes no Alcorão.)

O texto corânico parece não ter começo, meio ou fim, e sua estrutura não linear é semelhante a uma teia ou rede.[7] Considera-se por vezes que sua organização textual apresenta falta de continuidade, ausência de qualquer ordem cronológica ou temática e repetitividade.[w] Michael Sells, citando o trabalho do crítico Norman O. Brown, reconhece a observação de Brown de que a aparente desorganização da expressão literária corânica — seu modo disperso ou fragmentado de composição, na expressão de Sells — é, na verdade, um recurso literário capaz de produzir efeitos profundos, como se a intensidade da mensagem profética estivesse despedaçando o veículo da linguagem humana em que era comunicada.[222][223] Sells também aborda a muito discutida repetitividade do Alcorão, considerando-a igualmente um recurso literário. Outro grupo de pesquisadores examina as irregularidades e repetições mencionadas no texto corânico de uma forma que refuta a afirmação tradicional de que ele foi preservado por memorização juntamente com a escrita. Segundo eles, um período oral moldou o Alcorão como texto e ordem, e as repetições e irregularidades mencionadas eram remanescentes desse período.[20]

Um texto é autorreferencial quando fala de si mesmo e faz referência a si próprio. Segundo Stefan Wild, o Alcorão demonstra essa metatextualidade ao explicar, classificar, interpretar e justificar as palavras a serem transmitidas. A autorreferencialidade é evidente nas passagens em que o Alcorão se refere a si mesmo como revelação (tanzil), lembrança (dhikr), notícia (naba') e critério (furqan), de modo autodesignativo (afirmando explicitamente sua divindade: "E esta é uma Lembrança bendita que fizemos descer; então, agora a negais?"),[224] ou na ocorrência frequente das marcas "Dize", quando Maomé é ordenado a falar (por exemplo, "Dize: 'A orientação de Deus é a verdadeira orientação'", "Dize: 'Disputaríeis então conosco a respeito de Deus?'"). Segundo Wild, o Alcorão é altamente autorreferencial. Essa característica é mais evidente nas primeiras suras mecanas.[225]

Inimitabilidade

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No islamismo, 'i'jāz (em árabe: اَلْإِعْجَازُ), o "desafio da inimitabilidade" do Alcorão no sentido de feṣāḥa e belagha (ambas eloquência e retórica), é a doutrina segundo a qual o Alcorão possui uma qualidade milagrosa, tanto em conteúdo quanto em forma, que nenhuma fala humana pode igualar.[226] Segundo essa doutrina, o Alcorão é um milagre e sua inimitabilidade é a prova concedida a Maomé para autenticar sua condição profética.[227] A qualidade literária do Alcorão foi elogiada por estudiosos muçulmanos e por muitos estudiosos não muçulmanos.[228] A doutrina da natureza milagrosa do Alcorão é ainda reforçada pelo analfabetismo de Maomé, pois não se poderia suspeitar que o profeta iletrado tivesse composto o Alcorão.[229]

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Divisão da Lua, com Maomé de rosto oculto. falnama do século XVI. Uma possível expressão idiomática, Sura Al-Qamar 54:1–2, também mencionada em poemas de Imru' al-Qais,[230] foi entendida como uma desintegração física e apoiada por hádices,[231] apesar de o próprio Alcorão negar[232][125] milagres no sentido tradicional.[x]

O Alcorão é amplamente considerado a melhor obra da literatura árabe.[234][2][3] O surgimento do Alcorão foi uma experiência oral e auditiva poética;[235] a experiência estética de recitar e ouvir o Alcorão é frequentemente considerada uma das principais razões para conversões ao islamismo nos primeiros tempos.[236] A poesia árabe pré-islâmica era um elemento de desafio, propaganda e guerra,[237] e aqueles que tornavam seus oponentes incapazes de fazer o mesmo em feṣāḥa e belagha eram socialmente honrados, como se vê entre os poetas das Mu'allaqat. A etimologia da palavra "shā'ir" (poeta) conota o significado de um homem de conhecimento inspirado, de poderes invisíveis. "Para os primeiros árabes, a poesia era ṣihr ḥalāl e o poeta era um gênio que mantinha comunicações sobrenaturais com os gênios ou espíritos, as musas que o inspiravam."[236] Embora os árabes pré-islâmicos concedessem aos poetas um estatuto associado a seres sobre-humanos, adivinhos e profetas eram vistos como pessoas de estatuto inferior. Ao contrário das alegações hurufitas posteriores e das recentes alegações de profecias científicas, as afirmações tradicionais sobre milagres do Alcorão não se concentravam em profecias, com algumas exceções, como a vitória bizantina sobre os persas[238] em guerras que continuaram por centenas de anos, com vitórias e derrotas de ambos os lados.

As primeiras obras sobre o 'i'jāz do Alcorão começaram a surgir no século IX nos círculos mutazilitas, que enfatizavam apenas seu aspecto literário, e foram adotadas por outros grupos religiosos.[239] Segundo o gramático Al-Rummani, a eloquência contida no Alcorão consistia em tashbīh, istiʿāra, taǧānus, mubālaġa, concisão, clareza da fala (bayān) e talāʾum. Ele também acrescentou outras características desenvolvidas por si mesmo: a livre variação de temas (taṣrīf al-maʿānī), o conteúdo implícito (taḍmīn) das expressões e os fechos rimados (fawāṣil).[240] As obras mais famosas sobre a doutrina da inimitabilidade são dois livros medievais do gramático Al Jurjani (m. 1078 d.C.), Dala'il al-i'jaz ('os Argumentos da Inimitabilidade') e Asraral-balagha ('os Segredos da Eloquência').[241] Al Jurjani acreditava que a eloquência do Alcorão devia ser uma qualidade especial na forma de sua organização estilística e composição, ou uma maneira especial de unir palavras.[229] Angelika Neuwirth enumera os fatores que levaram ao surgimento da doutrina do 'i'jāz: a necessidade de explicar alguns versículos desafiadores do Alcorão;[242] no contexto do surgimento da teoria das "provas da profecia" (dâ'il an-nubuwwa) na teologia islâmica, demonstrar que o Alcorão é uma obra digna do lugar superior atribuído a Maomé na história dos profetas, obtendo assim superioridade polêmica sobre judeus e cristãos; a preservação do orgulho nacional árabe diante do confronto com o movimento iraniano Shu'ubiyya, etc.[243] Os estudiosos orientalistas Theodor Nöldeke, Friedrich Schwally e John Wansbrough, apontando defeitos linguísticos, sustentaram opiniões semelhantes sobre o texto corânico como descuidado e imperfeito.[244]

Importância no islamismo

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Túnica talismânica, norte da Índia-Decão, Metropolitan Museum

O Alcorão diz: "Fizemos descer o Alcorão com a verdade, e com a verdade ele desceu"[245] e afirma com frequência em seu texto que é divinamente ordenado.[246] O Alcorão fala de um pré-texto escrito que registra a palavra de Deus antes que ela seja enviada, a "tábua preservada", que também constitui a base da crença no destino, e os muçulmanos acreditam que o Alcorão foi enviado, ou começou a ser enviado, na Laylat al-Qadr.[159][247]

Reverenciado por muçulmanos devotos como "o santo dos santos",[248] cujo som leva alguns às "lágrimas e ao êxtase",[249] ele é o símbolo físico da fé, texto frequentemente usado como amuleto em ocasiões de nascimento, morte e casamento. Tradicionalmente, antes de começar a ler o Alcorão, realiza-se a ablução, busca-se refúgio em Alá contra o Satanás amaldiçoado e a leitura começa mencionando os nomes de Alá, Rahman e Rahim, conhecidos em conjunto como basmala. Consequentemente,

Ele nunca deve ficar sob outros livros, mas sempre sobre eles; não se deve beber nem fumar enquanto é lido em voz alta, e deve ser ouvido em silêncio. É um talismã contra doenças e desastres.[248][250]

Segundo o islamismo, o Alcorão é a palavra de Deus (Kalām Allāh). Sua natureza e se foi criado tornaram-se objeto de intenso debate entre estudiosos religiosos;[251][252] e, com o envolvimento da autoridade política nas discussões, alguns estudiosos religiosos muçulmanos que se opuseram à posição política enfrentaram perseguição religiosa durante o período do califa Almamune e nos anos seguintes.

Os muçulmanos acreditam que o texto corânico atual corresponde ao revelado a Maomé e que, segundo sua interpretação do Alcorão 15:9, ele é protegido da corrupção ("De fato, fomos Nós que fizemos descer o Alcorão e, de fato, somos seus guardiões").[253] Os muçulmanos consideram o Alcorão um sinal da profecia de Maomé e da verdade da religião. Por essa razão, nas sociedades islâmicas tradicionais, atribuía-se grande importância à memorização do Alcorão pelas crianças, e aqueles que memorizavam o Alcorão inteiro eram honrados com o título de hafiz. Ainda hoje, "milhões e milhões de pessoas recorrem diariamente ao Alcorão para explicar suas ações e justificar suas aspirações"[y] ou o veem como fonte de conhecimento científico,[255] embora isso tenha sido criticado como pseudociência.[256]

Os muçulmanos acreditam que o Alcorão contém as palavras literais de Deus,[7] um código completo de vida,[257] a revelação final à humanidade, uma obra de orientação divina revelada a Maomé por meio do anjo Gabriel.[22][258][259][260] Por outro lado, acredita-se na comunidade muçulmana que uma compreensão plena só é possível com a profundidade obtida nas ciências básicas e religiosas à qual os ulemás (imames no xiismo[261]) poderiam ter acesso, como "herdeiros dos profetas".[262] Por essa razão, a leitura direta do Alcorão ou aplicações baseadas em suas traduções literais são consideradas problemáticas, exceto por alguns grupos como os coranistas, que entendem o Alcorão como um livro completo e claro;[263] e o tafsir / fiqh é colocado em primeiro plano para alcançar entendimentos corretos. Em uma abordagem clássica, os estudiosos discutem os versículos do Alcorão em seu contexto, denominado asbab al-nuzul na literatura islâmica, bem como a língua e a linguística; passam-nos por filtros como muhkam e mutashabih, ab-rogante e ab-rogado; abrem expressões obscuras e procuram orientar os crentes. Não há padronização nas traduções do Alcorão,[264] e as interpretações vão da escolástica tradicional às concepções literalistas-salafistas, às esotéricas-sufistas, às modernas e seculares de exegese, conforme a profundidade científica e as tendências pessoais dos estudiosos.[265]

A sura Al-Fatiha, o primeiro capítulo do Alcorão, é recitada por inteiro em cada rakat da salah e em outras ocasiões. Essa sura, composta por sete versículos, é a sura do Alcorão recitada com maior frequência:[7]

BERJAYA
Durante as orações, em pé, os fiéis recitam o primeiro capítulo do Alcorão, al-Fatiha, seguido de qualquer outra seção

بِسْمِ ٱللَّهِ ٱلرَّحْمَٰنِ ٱلرَّحِيمِ
ٱلْحَمْدُ لِلَّهِ رَبِّ ٱلْعَٰلَمِينَ
ٱلرَّحْمَٰنِ ٱلرَّحِيمِ
مَٰلِكِ يَوْمِ ٱلدِّينِ
إِيَّاكَ نَعْبُدُ وَإِيَّاكَ نَسْتَعِينُ
ٱهْدِنَا ٱلصِّرَٰطَ ٱلْمُسْتَقِيمَ
صِرَٰطَ ٱلَّذِينَ أَنْعَمْتَ عَلَيْهِمْ غَيْرِ ٱلْمَغْضُوبِ عَلَيْهِمْ وَلَا ٱلضَّآلِّينَ

Em nome de Alá, o Inteiramente Misericordioso, o Especialmente Misericordioso.
[Todo] louvor pertence a Alá, Senhor dos mundos —
O Inteiramente Misericordioso, o Especialmente Misericordioso,
Soberano do Dia da Retribuição.
Somente a Ti adoramos e somente a Ti pedimos ajuda.
Guia-nos pelo caminho reto —
O caminho daqueles a quem concedeste favor, não daqueles que provocaram [Tua] ira nem daqueles que se desviaram.

—Alcorão 1:1-7

Outras seções do Alcorão, escolhidas livremente, também são lidas nas orações diárias. A sura Al-Ikhlāṣ ocupa o segundo lugar em frequência de recitação do Alcorão, pois, segundo muitas autoridades antigas, Maomé disse que Ikhlāṣ equivale a um terço de todo o Alcorão.[266]


قُلۡ هُوَ ٱللَّهُ أَحَدٌ
ٱللَّهُ ٱلصَّمَدُ
لَمۡ یَلِدۡ وَلَمۡ یُولَدۡ
وَلَمۡ یَكُن لَّهُۥ كُفُوًا أَحَدُۢ

Dize, ˹ó Profeta,˺: "Ele é Deus — Um ˹e Indivisível˺;
Deus — o Sustentador ˹de quem todos necessitam˺.
Ele nunca gerou descendência, nem foi gerado.
E não há ninguém comparável a Ele."

—Sura Al-Ikhlāṣ 112:1-4

O respeito pelo texto escrito do Alcorão é um elemento importante da fé religiosa para muitos muçulmanos, e o Alcorão é tratado com reverência. Com base na tradição e em uma interpretação literal do Alcorão 56:79 ("ninguém o tocará senão os purificados"), alguns muçulmanos acreditam que devem realizar uma limpeza ritual com água (wudu ou ghusl) antes de tocar um exemplar do Alcorão, embora essa opinião não seja universal.[7]

Exemplares desgastados e antigos do Alcorão são embrulhados em um pano e guardados indefinidamente em local seguro, enterrados em uma mesquita ou cemitério muçulmano, ou queimados, sendo as cinzas enterradas ou espalhadas sobre a água.[267] Durante a oração, o Alcorão é recitado apenas em árabe.[268]

No islamismo, a maioria das disciplinas intelectuais, incluindo a teologia islâmica, a filosofia, o misticismo e a jurisprudência, ocupou-se do Alcorão ou tem fundamento em seus ensinamentos.[7] Os muçulmanos acreditam que a pregação ou leitura do Alcorão é recompensada com recompensas divinas chamadas de diversas formas: ajr, thawab ou hasanat.[269]

Na arte islâmica

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O Alcorão também inspirou as artes islâmicas e, especificamente, as chamadas artes corânicas da caligrafia e da iluminura.[7] O Alcorão nunca é decorado com imagens figurativas, mas muitos exemplares foram ricamente ornamentados com padrões decorativos nas margens das páginas, entre as linhas ou no início das suras. Versículos islâmicos aparecem em muitos outros suportes, em edifícios e em objetos de todos os tamanhos, como lâmpadas de mesquita, trabalhos em metal, cerâmica e páginas avulsas de caligrafia para muraqqas ou álbuns.

Interpretação

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Personalidades misteriosas do Alcorão (Al-Kahf 94–97); Dhu al-Qarnayn, identificado pela maioria dos estudiosos ocidentais e muçulmanos como Alexandre, o Grande,[270][271][272][273], construindo um muro com a ajuda dos gênios para manter afastados Gogue e Magogue. Miniatura, Chester Beatty Library

Tafsir (em árabe: تفسير [tafˈsiːr]; em português: explicação) refere-se a uma exegese, ou comentário, do Alcorão. O autor de um tafsir é um mufassir (em árabe: مُفسّر; plural: em árabe: مفسّرون). Um tafsir corânico procura fornecer esclarecimento, explicação, interpretação, contexto ou comentário para a compreensão clara e a convicção acerca da vontade de Deus no islamismo.[274] Na abordagem clássica, a exegese do Alcorão baseia-se no versículo 7 de Al Imran:

"Ele é quem fez descer sobre ti o Livro. Nele há versículos firmes (muhkamat), que são a base do Livro, e outros semelhantes (mutashabihat; que se assemelham uns aos outros)." Na abordagem clássica, versículos que falam da "mão", do "trono" (arsh) de Alá ou de seu "sentar-se no trono" (istiwa) são considerados mutashabih. Não se acredita que essas expressões se refiram a um órgão ou ação física, mas elas são vistas como expressões metafóricas que simbolizam o poder, o conhecimento ou a majestade de Alá.[275]

Em princípio, um tafsir trata de questões de linguística, jurisprudência e teologia. Quanto à perspectiva e à abordagem, o tafsir pode ser dividido, de maneira ampla, em duas categorias principais: tafsir bi-al-ma'thur (lit. tafsir recebido), transmitido desde os primeiros tempos do islamismo por meio do profeta islâmico Maomé e de seus companheiros, e tafsir bi-al-ra'y (lit. tafsir por opinião), alcançado por reflexão pessoal ou raciocínio racional independente.[274]

Conhecimento do contexto / Asbab al-Nuzul: um estudioso deve compreender as razões e circunstâncias de uma revelação para interpretar corretamente o texto. Se um versículo for isolado sem conhecimento do contexto, pode ser mal interpretado.[276]

A hermenêutica corânica, e a hermenêutica em geral, refere-se aos esforços para compreender o Alcorão e os textos islâmicos por meio de uma abordagem mais objetiva e secular, usando critérios universais e indo além das formas tradicionalmente impostas. The Syro-Aramaic Reading of the Koran oferece uma abordagem nova e instigante para compreender as implicações do Alcorão, baseada em conhecimentos linguísticos e geográfico-culturais que também coincidem com as conclusões da pesquisa histórica da escola revisionista.

Há diferentes características e tradições para cada um dos tafsirs que representam as respectivas escolas e doutrinas, como o islamismo sunita, o islamismo xiita e o sufismo. Há também distinções gerais entre os tafsirs clássicos compilados por figuras de autoridade entre os estudiosos muçulmanos durante as eras formativas do islamismo e o tafsir moderno, que procura dirigir-se a um público mais amplo, incluindo as pessoas comuns.[274]

Interpretações exotéricas e esotéricas (ta'wil)

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Comentários que tratam do zahir ('aspectos exteriores') do texto são chamados tafsir (explicação), enquanto comentários hermenêuticos e esotéricos que tratam do batin são chamados ta'wil ('interpretação'). Comentaristas de orientação esotérica acreditam que o significado último do Alcorão é conhecido apenas por Deus.[7] A interpretação esotérica ou sufi relaciona os versículos corânicos às dimensões interiores ou esotéricas (batin) e metafísicas da existência e da consciência.[277] Segundo Sands, as interpretações esotéricas são mais sugestivas do que declarativas e são alusões (isharat), em vez de explicações (tafsir). Elas indicam possibilidades tanto quanto demonstram as percepções dos autores.[278]

Xiitas e sunitas, bem como alguns filósofos muçulmanos, acreditam que o significado do Alcorão não se restringe ao aspecto literal.[279]:7 Em contraste, o literalismo corânico, seguido por salafistas e zairitas, é a crença de que o Alcorão deve ser entendido apenas segundo seu significado aparente.[280][281] Henry Corbin relata um hádice que remonta a Maomé:

O Alcorão possui uma aparência exterior e uma profundidade oculta, um significado exotérico e um significado esotérico. Esse significado esotérico, por sua vez, oculta outro significado esotérico. E assim prossegue por sete significados esotéricos.[279]:7

Segundo os intérpretes esotéricos, o significado interior do Alcorão não elimina nem invalida seu significado exterior. Em vez disso, é como a alma, que dá vida ao corpo.[282] Corbin considera que o Alcorão desempenha um papel na filosofia islâmica, porque a gnosiologia anda de mãos dadas com a profetologia.[279]:13

Traduções

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Traduzir o Alcorão sempre foi problemático e difícil. Muitos argumentam que o texto corânico não pode ser reproduzido em outra língua ou forma.[283] Uma palavra árabe pode apresentar uma variedade de significados conforme o contexto, tornando difícil uma tradução exata.[284] Além disso, uma das maiores dificuldades para quem não conhece o idioma do Alcorão, diante das mudanças no uso linguístico ao longo dos séculos, são as traduções semânticas (de significados), que incluem contribuições do tradutor ao texto pertinente em vez de traduções literais. Embora as contribuições do autor muitas vezes apareçam entre colchetes e separadamente, as tendências individuais do autor também podem vir à tona na interpretação do texto principal. Esses estudos contêm reflexos e até distorções[285][286] causados pela região, seita,[287] educação, ideologia e conhecimento daqueles que as produziram, e os esforços para alcançar o conteúdo real ficam submersos nos detalhes de volumes de comentários. Essas distorções podem manifestar-se em muitas áreas de crença e prática, como o hijabe.[z] De fato, toda nova interpretação e tradução do Alcorão envolve inerentemente uma nova reestruturação semântica do texto.

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Meninas muçulmanas xiitas recitando o Alcorão colocado sobre atrís dobráveis (rehal) durante o Ramadã na cidade de Qom, Irã

A tradição islâmica também sustenta que foram feitas traduções para o negus da Abissínia e para o imperador bizantino Heráclio, pois ambos receberam cartas de Maomé contendo versículos do Alcorão.[284] Nos primeiros séculos, a questão não era a permissibilidade das traduções, mas se elas podiam ser usadas na oração. O Alcorão foi traduzido para a maioria das línguas africanas, asiáticas e europeias.[54] O primeiro tradutor do Alcorão foi Salman, o Persa, que traduziu a sura al-Fatiha para o persa durante o século VII.[289] Outra tradução do Alcorão foi concluída em 884 em Alwar (Sinde, Índia, hoje Paquistão), por ordem de Abdullah bin Umar bin Abdul Aziz, a pedido do rajá hindu Mehruk.[290]

As primeiras traduções completas e plenamente atestadas do Alcorão foram realizadas entre os séculos X e XII em persa. O rei samânida Mansur I (961–976) ordenou a um grupo de estudiosos do Coração que traduzisse para o persa o Tafsir al-Tabari, originalmente em árabe. Mais tarde, no século XI, um dos alunos de Abu Mansur Abdullah al-Ansari escreveu um tafsir completo do Alcorão em persa. No século XII, Najm al-Din Abu Hafs al-Nasafi traduziu o Alcorão para o persa.[291] Os manuscritos dos três livros sobreviveram e foram publicados várias vezes. Em 1936, eram conhecidas traduções em 102 idiomas.[284] Em 2010, o Hürriyet Daily News and Economic Review informou que o Alcorão foi apresentado em 112 idiomas na 18.ª Exposição Internacional do Alcorão em Teerã.[292]

A tradução do Alcorão feita em 1143 por Roberto de Ketton para Pedro, o Venerável, Lex Mahumet pseudoprophete, foi a primeira para uma língua ocidental (latim).[293] Alexander Ross ofereceu a primeira versão em inglês em 1649, a partir da tradução francesa L'Alcoran de Mahomet (1647), de André du Ryer. Em 1734, George Sale produziu a primeira tradução acadêmica do Alcorão para o inglês; outra foi feita por Richard Bell em 1937 e mais uma por Arthur John Arberry em 1955. Embora todos esses tradutores fossem não muçulmanos, houve numerosas traduções feitas por muçulmanos: entre as traduções modernas populares em inglês feitas por muçulmanos estão a edição Oxford World Classics de Muhammad Abdel Haleem, The Clear Quran, de Mustafa Khattab, e a tradução da Sahih International, entre várias outras. Assim como nas traduções da Bíblia, os tradutores para o inglês às vezes favoreceram palavras e construções inglesas arcaicas em detrimento de equivalentes mais modernos ou convencionais; por exemplo, dois tradutores amplamente lidos, Abdullah Yusuf Ali e Marmaduke Pickthall, usam os pronomes arcaicos plural e singular ye e thou em vez do mais comum you.[294]

A mais antiga tradução do Alcorão em gurmukhi foi encontrada na aldeia de Lande, no distrito de Moga, no Panjabe indiano, e foi impressa em 1911.[295]

Recitação

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Homens lendo o Alcorão na Mesquita dos Omíadas, em Damasco, Síria

Regras de recitação

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A recitação correta do Alcorão é objeto de uma disciplina própria chamada tajwid, que determina em detalhes como o Alcorão deve ser recitado, como cada sílaba deve ser pronunciada, a necessidade de prestar atenção aos pontos em que deve haver pausa, às elisões, a onde a pronúncia deve ser longa ou curta, a onde as letras devem soar juntas e a onde devem ser mantidas separadas, etc. Pode-se dizer que essa disciplina estuda as leis e métodos da recitação correta do Alcorão e abrange três áreas principais: a pronúncia correta de consoantes e vogais (a articulação dos fonemas corânicos), as regras de pausa e retomada da recitação e os aspectos musicais e melódicos da recitação.[297]

Para evitar uma pronúncia incorreta, os recitadores seguem um programa de treinamento com um professor qualificado. Os dois textos mais populares usados como referência para as regras do tajwid são Matn al-Jazariyyah, de Ibn al-Jazari,[298] e Tuhfat al-Atfal, de Sulayman al-Jamzuri.

As recitações de alguns recitadores egípcios, como El Minshawy, Al-Hussary, Abdul Basit e Mustafa Ismail, tiveram grande influência no desenvolvimento dos estilos atuais de recitação.[299][300][301]:83 O Sudeste Asiático é conhecido por recitações de nível internacional, evidenciadas pela popularidade de recitadoras como Maria Ulfah, de Jacarta.[297] Hoje, multidões lotam auditórios para competições públicas de recitação do Alcorão.[302][3]

Em geral, há dois tipos de recitação (com base no ritmo da recitação):

  1. Murattal é uma recitação em ritmo moderado, usada para estudo e prática.
  2. Mujawwad refere-se a uma recitação mais lenta, que emprega maior elaboração técnica e modulação melódica, como em apresentações públicas de especialistas treinados. É dirigida a uma audiência e depende dela, pois o recitador de mujawwad procura envolver os ouvintes.[303]

Leituras variantes

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Página do Alcorão com sinais de vocalização

As leituras variantes do Alcorão são um tipo de variante textual.[304][305] Segundo Melchert (2008), a maioria das divergências diz respeito às vogais a serem acrescentadas, sendo que a maior parte delas não pode plausivelmente refletir diferenças dialetais, e cerca de uma em cada oito divergências diz respeito a colocar pontos acima ou abaixo da linha.[306] Nasser classifica as leituras variantes em diversos subtipos, incluindo vogais internas, vogais longas, geminação (shaddah), assimilação e alternância.[307]

Os primeiros manuscritos do Alcorão não possuíam marcas, permitindo que várias recitações possíveis fossem transmitidas pelo mesmo texto escrito. O estudioso muçulmano do século X, de Bagdá, Ibn Mujāhid, é conhecido por ter estabelecido sete leituras textuais aceitáveis do Alcorão. Ele estudou várias leituras e sua confiabilidade e escolheu sete recitadores do século VIII das cidades de Meca, Medina, Kufa, Baçorá e Damasco. Ibn Mujahid não explicou por que escolheu sete recitadores, em vez de seis ou dez, mas isso pode estar relacionado a uma tradição profética (dito de Maomé) segundo a qual o Alcorão teria sido revelado em sete ahruf. Hoje, as leituras mais populares são as transmitidas por Ḥafṣ (m. 796) e Warsh (m. 812), que seguem, respectivamente, dois dos recitadores de Ibn Mujahid, Aasim ibn Abi al-Najud (Cufa, m. 745) e Nafiʽ al-Madani (Medina, m. 785). O influente Alcorão padrão do Cairo usa um sistema elaborado de sinais vocálicos modificados e um conjunto de símbolos adicionais para detalhes minuciosos e baseia-se na recitação de ʻAsim, a recitação de Cufa do século VIII. Essa edição tornou-se o padrão para as impressões modernas do Alcorão.[40][77] Ocasionalmente, um Alcorão antigo mostra compatibilidade com determinada leitura. Demonstrou-se que um manuscrito sírio do século VIII foi escrito segundo a leitura de Ibn Amir ad-Dimashqi.[308] Outro estudo sugere que esse manuscrito apresenta a vocalização da região de Homs.[309]

Segundo Ibn Taymiyyah, marcas de vocalização que indicam sons vocálicos específicos (tashkeel) foram introduzidas no texto do Alcorão durante a vida dos últimos Sahabah.[310]

Escrita e impressão

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Antes de a impressão ser amplamente adotada no século XIX, o Alcorão era transmitido em manuscritos feitos por calígrafos e copistas. Os manuscritos mais antigos foram escritos em caracteres Ḥijāzī. Os manuscritos em estilo Hijazi, contudo, confirmam que a transmissão escrita do Alcorão começou em estágio inicial. Provavelmente no século IX, as escritas começaram a apresentar traços mais espessos, tradicionalmente conhecidos como escrita cúfica. No fim do século IX, novas escritas começaram a aparecer em cópias do Alcorão e a substituir as anteriores. A razão para o abandono do estilo mais antigo era que sua produção demorava demais e a demanda por cópias aumentava. Por isso, os copistas passaram a escolher estilos de escrita mais simples. A partir do século XI, os estilos empregados foram principalmente o naskh, o muhaqqaq, o rayḥānī e, mais raramente, o thuluth. O Naskh teve uso muito disseminado. No Norte da África e na Península Ibérica, o estilo Maghribī era popular. Mais distinta é a escrita Bihari, usada exclusivamente no norte da Índia. O estilo Nastaʻlīq também era raramente usado no mundo persa.[311][312]

No início, o Alcorão não era escrito com pontos nem tashkeel. Esses elementos foram acrescentados ao texto durante a vida dos últimos Sahabah.[310] Como seria caro demais para a maioria dos muçulmanos comprar um manuscrito, cópias do Alcorão eram mantidas em mesquitas para torná-las acessíveis às pessoas. Essas cópias frequentemente assumiam a forma de uma série de 30 partes ou juzʼ. Em termos de produtividade, os copistas otomanos constituem o melhor exemplo. Isso ocorreu em resposta à ampla demanda, à impopularidade dos métodos de impressão e por razões estéticas.[313][314]

Embora a maioria dos escribas islâmicos fosse composta por homens, algumas mulheres também trabalharam como estudiosas e copistas; uma delas, que fez uma cópia desse texto, foi a jurista marroquina Amina binte Alhajaje Abede Alatife.[315]

Impressão

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Ayat Al-Kursi impresso na última impressão tarsh conhecida, 1444
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Impressão medieval com trechos de 7 suras diferentes, 11,8×16,9 cm
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Impressão dos primeiros 6 ayahs da sura Saba

Há registros de xilogravura de trechos do Alcorão já no século X.[316] Essa técnica era conhecida como tarsh e alcançou alto grau de complexidade, imprimindo letras de apenas um milímetro de altura, uma notável realização técnica. Foram usadas diferentes escritas, como cúfica, naskh e maghribī, juntamente com várias cores, como vermelho, amarelo e verde. Essas citações impressas do Alcorão eram usadas principalmente em talismãs e amuletos de proteção, mas também foram empregadas no século XIII em certificados de haje impressos. Contudo, após 1444, a técnica desapareceu por razões desconhecidas.[317]

A impressão árabe com tipos móveis foi encomendada pelo papa Júlio II (1503–1512) para distribuição entre cristãos do Oriente Médio.[318] O primeiro Alcorão completo impresso com tipos móveis foi produzido em Veneza em 1537–1538 para o mercado do Império Otomano por Paganino Paganini e Alessandro Paganini.[319][320] Esse Alcorão, porém, não foi utilizado, pois continha grande número de erros.[321] Outras duas edições incluem a edição Hinckelmann, publicada pelo pastor Abraham Hinckelmann em Hamburgo em 1694,[322] e a edição do padre italiano Ludovico Maracci, em Pádua, em 1698, com tradução e comentário em latim.[323]

As cópias impressas do Alcorão nesse período enfrentaram forte oposição dos juristas muçulmanos: a impressão de qualquer coisa em árabe foi proibida no Império Otomano entre 1483 e 1726 — inicialmente, até sob pena de morte.[324][314][325] A proibição otomana da impressão em escrita árabe foi suspensa em 1726, apenas para textos não religiosos, a pedido de Ibrahim Muteferrika, que imprimiu seu primeiro livro em 1729. Com exceção de livros em hebraico e línguas europeias, que não sofriam restrições, pouquíssimos livros e nenhum texto religioso foram impressos no Império Otomano durante outro século.[aa]

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Alcorão dividido em seis livros, publicado pela Dar Ibn Kathir, Damasco-Beirute

Em 1786, Catarina, a Grande, da Rússia, patrocinou uma imprensa para "ortografia tártara e turca" em São Petersburgo, com um mulá Osman Ismail responsável pela produção dos tipos árabes. Um Alcorão foi impresso nessa prensa em 1787, reimpresso em 1790 e 1793 em São Petersburgo e, em 1803, em Cazã.[ab] A primeira edição impressa no Irã apareceu em Teerã (1828), uma tradução em turco foi impressa no Cairo em 1842 e a primeira edição otomana oficialmente autorizada foi finalmente impressa em Constantinopla entre 1875 e 1877, em dois volumes, durante a Primeira Era Constitucional.[328][329]

Gustav Flügel publicou uma edição do Alcorão em 1834 em Leipzig, que permaneceu como referência na Europa por quase um século, até que a Universidade de Alazar, no Cairo, publicou uma edição do Alcorão em 1924. Essa edição resultou de uma longa preparação, pois padronizou a ortografia corânica, e continua sendo a base de edições posteriores.[311]

Críticas

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As críticas comuns ao Alcorão dizem respeito a suas origens questionadas, transmissão textual e oral imperfeita, preservação imperfeita, fontes preexistentes nas quais o Alcorão se apoia, inconsistência interna e ensinamentos éticos.

Nunca foi produzido um texto crítico do Alcorão baseado em análise de manuscritos, e isso é considerado problemático porque toda a demais literatura antiga, inclusive a sagrada, foi estudada quanto à precisão.[65] Críticos textuais afirmam que, com base na diversidade encontrada nas evidências manuscritas, na edição posterior à morte de Maomé, nas primeiras eliminações de variantes, nas primeiras tentativas de padronização (por exemplo, 653–705 d.C. e 936 d.C.), entre outros fatores, chega-se à visão de que "nunca houve um único texto original do Alcorão".[65] Estudiosos argumentam que os primeiros muçulmanos tinham uma compreensão confusa da mensagem de Maomé e que o surgimento de múltiplas tradições conflitantes revela muitas tentativas de dar sentido ao caos da composição, incluindo exemplos de dependência de textos cristãos e judaicos.[330]

A formação oral e a transmissão escrita do Alcorão, antes e depois de Maomé, têm sido questionadas com base em variantes dos manuscritos, na existência de numerosas narrativas antigas e contraditórias sobre como o Alcorão foi composto e no fato de as próprias fontes antigas discutirem variantes efetivas até mesmo entre seguidores de Maomé.[331][79] As correntes sunita e xiita do islamismo possuem narrativas concorrentes e contraditórias sobre as origens do Alcorão que não podem ser conciliadas.[79] Fontes antigas não muçulmanas indicam que não havia Alcorão no tempo de Maomé, pois as primeiras fontes cristãs e judaicas sobre o islamismo não demonstram conhecimento de uma escritura especificamente muçulmana durante a vida de Maomé.[87]

Quanto à alegação de origem divina, críticos apontam fontes preexistentes, não apenas retiradas da Bíblia, supostamente revelações mais antigas de Deus, mas também fontes heréticas, apócrifas e talmúdicas, como o Evangelho Siríaco da Infância e o Protoevangelho de Tiago. O Alcorão reconhece que acusações de empréstimo de antigas fábulas populares eram feitas contra Maomé.[332]

Relação com outras literaturas

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Alguns grupos não muçulmanos, como a Fé Bahá'í e os drusos, consideram o Alcorão sagrado. Na Fé Bahá'í, o Alcorão é aceito como revelação autêntica de Deus juntamente com as revelações das demais religiões mundiais, sendo o islamismo visto como uma etapa do processo divino de revelação progressiva. Bahá'u'lláh, profeta fundador da Fé Bahá'í, escreveu sobre o Alcorão.[333] Os universalistas unitários também podem buscar inspiração no Alcorão. Sugeriu-se que o Alcorão apresenta algumas semelhanças narrativas com o Diatessaron, o Protoevangelho de Tiago, o Evangelho da Infância de Tomé, o Evangelho do Pseudo-Mateus e o Evangelho Árabe da Infância.[334][335] Um estudioso sugeriu que o Diatessaron, como uma harmonia evangélica, pode ter contribuído para a concepção de que o Evangelho cristão é um único texto.[336]

Relação com textos judaicos e cristãos

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BERJAYA
Jonas e o peixe gigante no Jami' al-tawarikh, Metropolitan Museum. Um conto popular comum[337] encontra lugar em Sura As-Saaffat 37:139, bem como em outros textos sagrados, e pode ser rastreado até Oannes, o iogue indiano Matsyendranatha e o herói grego Jasão

O Alcorão atribui sua relação com livros anteriores (a Torá, ou Tawrāh, e o Evangelho, ou ʾInjīl) à origem única de todos eles, afirmando que todos foram revelados por Alá.[338] O Alcorão nomeia explicitamente a Torá, o Evangelho e os Salmos como entidades distintas (sura 3:3–4, sura 4:163, sura 5:44,46) e também faz referência às "antigas escrituras, as escrituras de Abraão e Moisés" (sura 87:18–19; sura 53:36–37).[339] Muitos hoje acreditam que ele afirma que judeus e cristãos as corromperam por falsificação e alteração (Taḥrīf).[340][341] Outros, contudo, afirmam que o Alcorão demonstra profunda reverência por essas escrituras, preservadas essencialmente tanto como as temos hoje quanto no tempo do profeta, e que muitos grandes intérpretes do Alcorão (tafsir) também assim entenderam, sendo quaisquer problemas relativos à interpretação, e não à corrupção textual.[342] Um estudo das concepções muçulmanas sobre a Bíblia nos primeiros quatro séculos observou que visões positivas sobre a preservação das escrituras anteriores predominam no próprio Alcorão, mesmo nos poucos versículos que expressam uma visão negativa, e entre os primeiros comentaristas, em razão da crença de que Maomé estava mencionado nas escrituras anteriores.[343] Análises dos primeiros comentários (tafsir) sobre a compreensão corânica da adulteração das escrituras anteriores indicam que, no início, nem mesmo as palavras usadas pelos comentaristas para descrever a adulteração implicavam ou significavam corrupção textual, pois se entendia que Maomé aparecia ao menos na Torá.[344] Estudiosos bíblicos observam que as evidências manuscritas do Novo Testamento verificam que ele era o mesmo no tempo de Maomé e antes, surgindo assim um dilema entre revelações da mesma divindade.[345]

Segundo Christoph Luxenberg (em The Syro-Aramaic Reading of the Koran), a língua do Alcorão era semelhante ao siríaco.[346] O Alcorão relata histórias de muitas pessoas e acontecimentos narrados nos livros sagrados judaicos e cristãos (Tanakh, Bíblia) e na literatura devocional (Apócrifos, Midrash), embora difira em muitos detalhes. Adão, Enoque, Noé, Éber, Selá, Abraão, , Ismael, Isaque, Jacó, José, , Jetro, Davi, Salomão, Elias, Eliseu, Jonas, Aarão, Moisés, Zacarias, João Batista e Jesus são mencionados no Alcorão como profetas de Deus (ver Profetas do Islã). De fato, Moisés é mencionado no Alcorão mais do que qualquer outro indivíduo.[146] Jesus é mencionado pelo nome no Alcorão com maior frequência que Maomé (que muitas vezes é referido indiretamente como "o Profeta" ou "o Apóstolo"), enquanto Maria é mencionada no Alcorão mais vezes do que no Novo Testamento.[347]

O Alcorão é profundamente permeado por tradições bíblicas; contudo, é improvável que Maomé ou seu público tivessem acesso a cópias escritas da Bíblia e de outras obras da literatura judaica e cristã, pois citações diretas são bastante raras.[339] Em vez disso, o Alcorão frequentemente parafraseia, alude e ecoa essas narrativas bíblicas, mostrando evidências de contato limitado com textos escritos, sejam bíblicos, extrabíblicos ou pós-bíblicos.[339] A maior parte dessas tradições bíblicas chegou a Maomé e seus seguidores em forma oral.[339] O Alcorão não apenas toma emprestadas histórias bíblicas, mas modifica e desenvolve algumas delas, refletindo com frequência maior interação com versões cristãs das histórias do que com as de outros grupos.[86]

Relação com a escrita árabe

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Após o Alcorão e a ascensão geral do islamismo, o alfabeto árabe desenvolveu-se rapidamente como forma artística.[54] O gramático árabe Sibawayh escreveu um dos primeiros livros de gramática árabe, chamado "Al-Kitab", que se apoiava fortemente na linguagem do Alcorão. Wadad Kadi, professora de Línguas e Civilizações do Oriente Próximo na Universidade de Chicago, e Mustansir Mir, professor de estudos islâmicos na Youngstown State University, afirmam que o Alcorão exerceu influência particular sobre a dicção, os temas, as metáforas, os motivos e os símbolos da literatura árabe e acrescentou novas expressões e novos significados a antigas palavras pré-islâmicas que se tornariam onipresentes.[348]

Ver também

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Notas e referências

Notas

  1. Segundo Welch na Encyclopedia of Islam, os versículos referentes ao uso da palavra hikma provavelmente deveriam ser interpretados à luz de IV, 105, onde se diz que "Maomé deve julgar (tahkum) a humanidade com base no Livro que lhe foi enviado."
  2. "O Apóstolo de Deus respondeu: 'Às vezes ela (a revelação) é como o toque de um sino; essa forma de Inspiração é a mais difícil de todas e então esse estado passa depois que assimilei o que foi inspirado. Às vezes o Anjo vem na forma de um homem, fala comigo e eu compreendo tudo o que ele diz.' Aixa acrescentou: Em verdade, vi o Profeta sendo inspirado divinamente em um dia muito frio e notei o suor caindo de sua testa."[15]
  3. Tradicionalmente interpretado como 'analfabeto', mas o significado é mais complexo. Comentaristas medievais como al-Tabari (m. 923) sustentavam que o termo comportava dois sentidos: primeiro, a incapacidade geral de ler ou escrever; segundo, a inexperiência ou ignorância em relação aos livros ou escrituras anteriores (embora dessem prioridade ao primeiro sentido). O analfabetismo de Maomé era considerado um sinal da autenticidade de sua condição profética. Por exemplo, segundo Facradim Arrazi, se Maomé dominasse a escrita e a leitura, poderia ter sido suspeito de ter estudado os livros dos antepassados. Alguns estudiosos, como W. Montgomery Watt, preferem o segundo significado de ummi — entendem que ele indica falta de familiaridade com textos sagrados anteriores.[25][29]
  4. "Poucos deixaram de se convencer de que ... o Alcorão é ... as palavras de Maomé, talvez até ditadas por ele após sua recitação."[44] Há alguma divergência entre as primeiras fontes muçulmanas sobre quem foi o primeiro a reunir os relatos. Pelo menos uma fonte atribui a Salim, escravo liberto de Abu Hudaifa, a reunião do Alcorão em um mushaf: "Relata-se... de Ibne Buraida, que disse:
    O primeiro dos que reuniram o Alcorão em um mushaf (códice) foi Salim, o escravo liberto de Abu Hudaifa.[45]
  5. Segundo alguns pesquisadores, como John Wansbrough e Yehuda D. Nevo,[51] posteriormente conhecidos como integrantes da escola revisionista de estudos islâmicos, a canonização do Alcorão, mediante a unificação de "vários textos anteriores" em um único texto-padrão imutável e a eliminação dos demais, teria ocorrido ao longo de aproximadamente 200 anos. Eles argumentaram que um método comum na tradição islâmica era legitimar uma prática atribuindo-a a uma autoridade do passado que gozava de ampla aceitação popular.
  6. Ibn Babawayh foi o primeiro grande autor duodecimano "a adotar uma posição idêntica à dos sunitas", e a mudança resultou da "ascensão ao poder do Califado Abássida sunita", momento a partir do qual a crença na corrupção do Alcorão tornou-se insustentável diante da posição da "ortodoxia" sunita.[58]
  7. Tanto para a alegação de que leituras variantes ainda são transmitidas quanto para a afirmação de que nenhuma edição crítica desse tipo foi produzida, ver Gilliot, C., "Creation of a fixed text".[69]
  8. Ibn Babawayh foi o primeiro grande autor duodecimano "a adotar uma posição idêntica à dos sunitas", e a mudança resultou da "ascensão ao poder do Califado Abássida sunita", momento a partir do qual a crença na corrupção do Alcorão tornou-se insustentável diante da posição da "ortodoxia" sunita.[58]
  9. Estudos que utilizaram datação por radiocarbono indicam que os pergaminhos datam do período anterior a 671 d.C. com 99% de probabilidade.[81][82]
  10. Outros historiadores da arquitetura, Julian Rabi,[95] Jere Bacharach,[96] e Yildirim Yavuz,[97] bem como os estudiosos H. I. Bell,[98] Rafi Grafman e Myriam Rosen-Ayalon,[99] e Amikam Elad,[100], afirmam ou sugerem que Abedal Maleque iniciou o projeto e Alualide o concluiu ou ampliou.
  11. Autores árabes e persas, como o geógrafo do século X al-Muqaddasi,[101] o estudioso do século XI Nasir Khusraw,[101] o geógrafo do século XII Alidrissi[102] e o estudioso islâmico do século XV Mujir al-Din,[103] além de estudiosos orientalistas norte-americanos e britânicos do século XIX, como Edward Robinson, Guy Le Strange e Edward Henry Palmer, explicaram que o termo Masjid al-Aqsa se refere a toda a praça da esplanada também conhecida como Monte do Templo ou Haram al-Sharif ('Nobre Santuário') — isto é, toda a área, incluindo o Domo da Rocha, as fontes, os portões e os quatro minaretes — porque nenhum desses edifícios existia na época em que o Alcorão foi escrito.[104][105]
  12. Embora "masjid" possa simplesmente significar um local de culto, isto é, um lugar de prostração tradicionalmente usado para adoração, também pode se referir aos edifícios onde esses atos ocorriam. Nesse caso, os versículos pertinentes poderiam ser datados de depois da construção desses edifícios. Outro versículo que alude à história do Miraj de Maomé pode ser usado para concluir que essas duas mesquitas não ficam tão distantes uma da outra. A esse respeito, pode-se considerar as conclusões de estudiosos que situam Al-Aqsa perto de Meca — na região de Al-Ji'rana —,[106] ou, em sentido contrário, a escola revisionista de estudos islâmicos, que sugere que o islamismo nasceu no noroeste da Arábia.
  13. Tajalli (em árabe: تَجَلِّي ; romaniz.: manifestação) é a aparição e revelação de Deus como verdade no sufismo.[130] Acredita-se que tajalli seja um processo pelo qual Deus se manifesta em formas concretas.[131]
  14. Qualidades humanas atribuídas a Alá no Alcorão, como vir, ir, sentar-se, satisfação, raiva e tristeza; "Alá as dotou de palavras para aproximá-las de nossas mentes; a esse respeito, são como provérbios usados para criar uma imagem na mente e, assim, ajudar o ouvinte a compreender claramente a ideia que se deseja expressar."[132][133]
  15. Minha mãe, a suma sacerdotisa, concebeu; em segredo me deu à luz. Colocou-me em um cesto de junco, selou minha tampa com betume e lançou-me no rio, que subiu sobre mim.[142]
  16. 1 2 Beyza Bilgin afirma que a expressão "que coloquem sobre si suas coberturas externas", no versículo 59 de Al-Ahzab, foi revelada porque, nas condições daquela época, mulheres eram assediadas por serem consideradas concubinas, e comentou o seguinte:[168]
    Em outras palavras, o uso do véu é uma questão de segurança que surgiu conforme as necessidades daquele período. Isso não é considerado de modo algum e é apresentado como mandamento de Deus. Durante mil anos, disseram às mulheres que era mandamento de Deus. As mulheres disseram o mesmo às filhas e noras.
    Ela disse o seguinte sobre cobrir-se durante a oração:
    Perguntam-me: "Você se cobre enquanto reza?" Claro, cubro-me quando estou em congregação. Sou obrigada a não perturbar a paz. Mas também rezo com a cabeça descoberta em minha própria casa. Porque o requisito do Alcorão para a oração não é cobrir-se, mas a ablução e voltar-se para a quibla. É uma questão de mil anos. Está profundamente arraigada em nós. Mas isso definitivamente não deve ser subestimado. Porque as pessoas fazem isso pensando que é mandamento de Deus. Por outro lado, não devemos declarar uma mulher que não se cobre uma má mulher.[168]
  17. Um versículo que demonstra que o Alcorão não se preocupa excessivamente com a forma encontra-se na sura Al-A'raf, 26: "Ó filhos de Adão! Nós vos concedemos vestimenta para cobrir vossa nudez e como adorno. Mas a vestimenta da taqwa é a melhor de todas. Esse é um dos sinais de Alá, para que possam lembrar."
  18. Sunna originalmente significava uma tradição que não continha a definição de bom e mau. Posteriormente, as "boas tradições" começaram a ser chamadas de sunna e estabeleceu-se o conceito de "sunna de Maomé".[169]
  19. "No início do século X, o Califado de Bagdá tinha em seu palácio 7.000 eunucos negros e 4.000 eunucos brancos."[179] O tráfico árabe de escravos normalmente envolvia a venda de escravos homens castrados. Meninos negros entre oito e doze anos tinham o pênis e o escroto completamente amputados. Segundo relatos, cerca de dois em cada três meninos morriam, mas os sobreviventes alcançavam preços elevados.[180]
  20. Na jurisprudência xiita, é ilícito que o senhor de uma escrava conceda a terceiros o uso dela para relações sexuais. O estudioso xiita Shaykh al-Tusi declarou: ولا يجوز إعارتها للاستمتاع بها لأن البضع لا يستباح بالإعارة "Não é permitido emprestar (a escrava) para fins de prazer, porque a relação sexual não pode tornar-se legítima por meio de empréstimo"[181] e os estudiosos xiitas al-Muhaqiq al-Kurki, Allamah Al-Hilli e Ali Asghar Merwarid emitiram a seguinte decisão: ولا تجوز استعارة الجواري للاستمتاع "Não é permitido emprestar a escrava para fins de relação sexual"[182]
  21. Qira'at: todos, exceto ʻAsem, Al-Kesa'i, Yaʻqub e Khalaf em uma de suas narrações, leem o versículo 4 como Rei do Dia do Juízo.
  22. Os estudiosos divergem quanto ao número exato, mas trata-se de uma discordância sobre "a colocação das divisões entre os versículos, não sobre o próprio texto".[200]
  23. "O processo final de reunião e codificação do texto do Alcorão foi guiado por um princípio over-arching: as palavras de Deus não deveriam, de modo algum, ser distorcidas ou maculadas pela intervenção humana. Por essa razão, aparentemente não se fez nenhuma tentativa séria de editar as numerosas revelações, organizá-las em unidades temáticas ou apresentá-las em ordem cronológica... Isso deu origem, no passado, a muitas críticas de estudiosos europeus e americanos do islamismo, que consideram o Alcorão desorganizado, repetitivo e muito difícil de ler."[220] Samuel Pepys: "É difícil compreender como qualquer mortal poderia considerar este Alcorão um Livro escrito no Céu, bom demais para a Terra; um livro bem escrito, ou de fato um livro em absoluto; e não uma rapsódia desconcertante; escrito, no que diz respeito à escrita, tão mal quanto quase qualquer livro já foi!"[221]
  24. Mehmet Özdemir (prof. dr.), a respeito da sira, chama atenção para o número quase inexistente de milagres (dalāʾil al-nubuwwa) nos primeiros registros e para as centenas de acréscimos feitos em períodos posteriores.[233]
  25. O argelino Mohammed Arkoun, professor emérito de Pensamento Islâmico na Universidade de Paris.[254]
  26. "Que elas puxem seus véus sobre o peito" (sura 24:31). Na Leitura Siro-Aramaica do Alcorão de Luxenberg, o versículo, em vez disso, ordena às mulheres que "apertem seus cintos ao redor da cintura". O cinto era um sinal de castidade no mundo cristão.[288] Segundo ele, os significados das palavras na parte pertinente do versículo são os seguintes: خِمار Khimar; faixa, جيب jyb; seio, saco, وَلْيَضْرِبْنَ; "que elas apertem".
  27. "As principais casas impressoras otomanas publicaram, em conjunto, apenas 142 livros em mais de um século de impressão entre 1727 e 1838. Quando se considera também o fato de que apenas um número minúsculo de exemplares de cada livro foi impresso, essa estatística demonstra que a introdução da imprensa não transformou a vida cultural otomana até o surgimento de uma mídia impressa vigorosa em meados do século XIX."[326]
  28. "À custa do império, foi estabelecida em São Petersburgo uma 'Tipografia Tártara e Turca'; um estudioso local, o mulá Osman Ismail, ficou responsável pela fabricação dos tipos. Um dos primeiros produtos dessa casa impressora foi o Alcorão. Por intermédio do médico e escritor Johann Georg v. Zimmermann (m. 1795), amigo de Catarina II, um exemplar da publicação chegou à biblioteca da Universidade de Göttingen. Seu diretor, o filólogo Christian Gottlob Heyne (m. 1812), apresentou imediatamente a obra no Göttingische Anzeigen von gelehrten Sachen (28 de julho de 1788); ali destacou especialmente a beleza dos tipos árabes. Ao texto árabe foram acrescentadas glosas marginais constituídas predominantemente por variantes de leitura. A impressão foi reproduzida sem alterações em 1790 e 1793 em São Petersburgo (cf. Schnurrer, Bibliotheca arabica, nº 384); mais tarde, após a transferência da tipografia para Cazã, surgiram edições em diferentes formatos e com apresentações variadas[327]

Referências

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  3. 1 2 3 Esposito, John (2010). Islam: The Straight Path 4th ed. [S.l.]: Oxford University Press. p. 21. ISBN 978-0-19-539600-3. Ao longo da história, muitos cristãos árabes também o consideraram a perfeição da língua e da literatura árabes.
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  10. Ver "Ķur'an, al-", Encyclopedia of Islam Online e 9:111
  11. Alcorão 20:2 cf.
  12. Alcorão 25:32 cf.
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  38. 1 2 3 Tabatabae 1988, p. 99:
    Como a palavra de Deus parecia ameaçada de alteração, o [terceiro] califa ordenou que cinco dos qurrā' dentre os companheiros — um deles Zaid ibne Tabite, que havia compilado o primeiro volume — produzissem outras cópias a partir do primeiro volume, que havia sido preparado por ordem do primeiro califa e ficara guardado com Háfeça, esposa do Profeta e filha do segundo califa. As demais cópias, já nas mãos de muçulmanos de outras regiões, foram recolhidas e enviadas a Medina, onde, por ordem do califa, foram queimadas (ou, segundo alguns historiadores, destruídas por fervura). Assim foram feitas várias cópias: uma permaneceu em Medina, uma em Meca e uma foi enviada a cada um de Xame (território hoje dividido entre Síria, Líbano, Palestina e Jordânia), Cufa e Baçorá. Diz-se que, além dessas cinco, uma cópia também foi enviada ao Iêmen e outra ao Barém. Essas cópias eram chamadas de cópias do Imame e serviram de original para todas as cópias futuras.
  39. al-Bukhari, Muhammad. «Sahih Bukhari, volume 6, book 61, narrations number 509 and 510». sahih-bukhari.com. Consultado em 16 de fevereiro de 2018. Cópia arquivada em 6 de agosto de 2026
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    • "Poesia e linguagem", de Navid Kermani, pp. 107–20.
    • Para a história da compilação, ver "Introdução", de Tamara Sonn, pp. 5–6
    • Para escatologia, ver "Discovering (final destination)", de Christopher Buck, p. 30.
    • Para a estrutura literária, ver "Linguagem", de Mustansir Mir, p. 93.
    • Para escrita e impressão, ver "Transmissão escrita", de François Déroche, pp. 172–87.
    • Para recitação, ver "Recitação", de Anna M. Gade, pp. 481–93
  41. Yusuff, Mohamad K. «Zayd ibn Thabit and the Glorious Qur'an». Cópia arquivada em 19 de junho de 2026
  42. Cook 2000, pp. 117–124.
  43. "A maioria ... faz de Otomão pouco mais que um editor, mas há alguns [relatos] em que ele aparece muito mais como um compilador, conclamando as pessoas a trazer-lhe qualquer fragmento do Alcorão que porventura possuíssem." Alguns relatos também "sugerem que, de fato, o material" com que Abu Becre trabalhou "já havia sido reunido", o que, por ele ter sido o primeiro califa, significaria que fora reunido quando Maomé ainda estava vivo.Cook 2000, p. 121
  44. Peters 1991, pp. 3–5
  45. John Gilchrist, Jam' Al-Qur'an. The Codification of the Qur'an Text A Comprehensive Study of the Original Collection of the Qur'an Text and the Early Surviving Qur'an Manuscripts, [MERCSA, Mondeor, 2110 Republic of South Africa, 1989], Chapter 1. "The Initial Collection of the Qur'an Text", citing as-Suyuti, Al-Itqan fii Ulum al-Qur'an, p. 135).
  46. Ao examinar o hádice sobre a surpresa de Omar ao descobrir que "este Alcorão foi revelado em sete ahruf", Suyuti, destacado teólogo islâmico do século XV, conclui que a "melhor opinião" sobre esse hádice é que ele pertence aos "mutashabihat", isto é, seu significado "não pode ser compreendido". Suyuti, Tanwir al-Hawalik, 2nd ed. (Beirut: Dar al-Jayl, 1993), p. 199.
  47. Estudiosos xiitas rejeitam todos os hádices que afirmam que o Alcorão foi revelado em sete ahruf; dizem que esses hádices não foram narrados por meio do isnad dos ahl al-Bayt.«معهد الفتح الإسلامي يرحب بكم». www.alfatihonline.com. Consultado em 15 de agosto de 2024. Cópia arquivada em 19 de abril de 2026
  48. O estudioso islâmico Abu Ammaar Yasir Qadhi declarou em uma entrevista de 2020 que "todo estudante do conhecimento ... que estuda ulum do Alcorão" sabe "que os temas mais difíceis são ahruf e qira'at", tão desconcertantes que mesmo "os mais avançados entre nossos estudiosos não têm plena certeza de como resolver tudo isso e responder às questões envolvidas",In the Hot Seat: Muḥammad Hijāb Interviews Dr. Yasir Qadhi. Cópia arquivada em 28 de fevereiro de 2026 YouTube, Yasir Qadhi, 8 June 2020, video at 1h24m17s
  49. Ibn Warraq (fevereiro de 2008). «Which Koran?». New English Review. Consultado em 17 de março de 2021. Cópia arquivada em 9 de novembro de 2020
  50. O califa islâmico Otomão compilou o Alcorão usando um dos aḥruf durante o século VII, e os demais aḥruf deixaram de ser usados. Abu Ameenah Bilal Philips, Tafseer Soorah Al-Hujuraat, 1990, Tawheed Publications, Riyadh, pp. 28-29.
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  52. A maioria das explicações identifica os sete aḥruf com dialetos árabes, embora uma minoria os identifique como categorias de material corânico. Dutton 2012, p. 26.
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  102. Idrīsī, Muhammad; Jaubert, Pierre Amédée (1836). Géographie d'Édrisi (em francês). [S.l.]: à l'Imprimerie royale. pp. 343–344. Consultado em 31 de julho de 2022. Cópia arquivada em 19 de julho de 2023. Sous la domination musulmane il fut agrandi, et c'est (aujourd'hui) la grande mosquée connue par les Musulmans sous le nom de Mesdjid el-Acsa مسجد الأقصى. Il n'en existe pas au monde qui l'égale en grandeur, si l'on en excepte toutefois la grande mosquée de Cordoue en Andalousie; car, d'après ce qu'on rapporte, le toit de cette mosquée est plus grand que celui de la Mesdjid el-Acsa. Au surplus, l'aire de cette dernière forme un parallelogramme dont la hauteur est de deux cents brasses (ba'a), et le base de cents quatre-vingts. La moitié de cet espace, celle qui est voisin du Mihrab, est couverte d'un toit (ou plutôt d'un dôme) en pierres soutenu par plusieurs rangs de colonnes; l'autre est à ciel ouvert. Au centre de l'édifice est un grand dôme connu sous le nom de Dôme de la roche; il fut orné d'arabesques en or et d'autres beaux ouvrages, par les soins de divers califes musulmans. Le dôme est percé de quatre portes; en face de celle qui est à l'occident, on voit l'autel sur lequel les enfants d'Israël offraient leurs sacrifices; auprès de la porte orientale est l'église nommée le saint des saints, d'une construction élégante; au midi est une chapelle qui était à l'usage des Musulmans; mais les chrétiens s'en sont emparés de vive force et elle est restée en leur pouvoir jusqu'à l'époque de la composition du présent ouvrage. Ils ont converti cette chapelle en un couvent où résident des religieux de l'ordre des templiers, c'est-à-dire des serviteurs de la maison de Dieu. Também em Williams, G.; Willis, R. (1849). «Account of Jerusalem during the Frank Occupation, extracted from the Universal Geography of Edrisi. Climate III. sect. 5. Translated by P. Amédée Jaubert. Tome 1. pp. 341—345.». The Holy City: Historical, Topographical, and Antiquarian Notices of Jerusalem. [S.l.]: J.W. Parker. Consultado em 31 de julho de 2022. Cópia arquivada em 19 de julho de 2023
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  104. Le Strange, Guy (1890). Palestine Under the Moslems: A Description of Syria and the Holy Land from A.D. 650 to 1500. Translated from the Works of the Medieval Arab Geographers. [S.l.]: Houghton, Mifflin. Consultado em 29 de maio de 2022. Cópia arquivada em 19 de julho de 2023. A MESQUITA AKSÀ. A grande mesquita de Jerusalém, Al Masjid al Aksà, a "Mesquita Mais Distante", deriva seu nome da tradicional Viagem Noturna de Maomé, à qual se faz alusão nas palavras do Alcorão (xvii. I)... o termo "Mesquita" é aqui entendido como designando toda a área do Nobre Santuário, e não apenas o edifício principal da Aksà, que, nos dias do Profeta, não existia.
  105. Strange, Guy le (1887). «Description of the Noble Sanctuary at Jerusalem in 1470 A.D., by Kamâl (or Shams) ad Dîn as Suyûtî». Royal Asiatic Society of Great Britain and Ireland. Journal of the Royal Asiatic Society of Great Britain and Ireland. 19 (2): 247–305. ISSN 0035-869X. JSTOR 25208864. doi:10.1017/S0035869X00019420. …o termo Masjid (de onde, por meio do espanhol Mezquita, vem nossa palavra Mosque) designa a totalidade do edifício sagrado, compreendendo o prédio principal e o pátio, com suas arcadas laterais e capelas menores. O exemplar mais antigo da mesquita árabe consistia em um pátio aberto, dentro do qual, ao redor de suas quatro paredes, corriam colunatas ou claustros para abrigar os fiéis. No lado do pátio voltado para a quibla (na direção de Meca), para a qual o fiel deve se voltar, a colunata, em vez de ser simples, é ampliada, para acomodar o maior número da congregação, formando o Jami' ou lugar de reunião… ao tratarmos agora do Nobre Santuário de Jerusalém, devemos lembrar que o termo 'Masjid' não pertence apenas à mesquita Aksa (mais propriamente o Jami' ou local de reunião para a oração), mas a todo o recinto, com o Domo da Rocha no meio e todas as outras cúpulas e capelas menores.
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  117. Fazeli, Hamidreza; Tali Tabasi, Marziyeh; Fazeli, Alireza; Fararooei, Shokrolla. «A Critical Study of the Quran's Theory of Mythology (A Case Study on Mohammad Arkoun's Perspectives)». Iraqi Open Access Journals. p. 2. Consultado em 5 de março de 2024. Cópia arquivada em 17 de fevereiro de 2025. Após examinar os versículos do Alcorão para descobrir onde a palavra mitologia foi usada e buscar a correspondência entre o significado e o contexto com o propósito corânico de conhecimento e orientação, incluindo regras e questões educacionais, constatamos que o conceito de mito não é aceitável no Alcorão. O resultado deste estudo mostra que o Alcorão não é um mito; ao contrário, as histórias são factuais e baseadas na realidade.
  118. Em sua Encyclopaedia of the Social Concepts of the Qur'ân, ele menciona que deveríamos compreender pessoas más como Namrud (o rei que humilhou e aprisionou Abraão), Haman, Qarun e Faraó "não como figuras históricas, mas como conceitos sobre seres humanos". Para dar um exemplo, Shariati expressou a opinião de que Qarun/Coré simbolizava a elite econômica, enquanto o Faraó era o símbolo máximo de um tirano. https://dspace.library.uu.nl/bitstream/handle/1874/210507/doeka.pdf?sequence=2&isAllowed=y
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Leitura adicional

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Textos introdutórios

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Comentários corânicos tradicionais (tafsir)

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  • Al-Tabari (1987). «Jāmiʻ al-bayān ʻan taʼwīl al-qurʼān». The Commentary on the Qurʼān. transl. J. Cooper (ed.). [S.l.]: Oxford University Press. ISBN 978-0-19-920142-6 
  • Tabatabae, Sayyid Mohammad Hosayn. Tafsir al-Mizan. [S.l.: s.n.] 

Estudos temáticos

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  • McAuliffe, Jane Dammen (1991). Qurʼānic Christians: an analysis of classical and modern exegesis. New York: Cambridge University Press. ISBN 978-0-521-36470-6 
  • Siljander, Mark D.; Mann, John David (2008). A Deadly Misunderstanding: a Congressman's Quest to Bridge the Muslim-Christian Divide. New York: Harper One. ISBN 978-0-06-143828-8 
  • Stowasser, Barbara Freyer (1 de junho de 1996). Women in the Qur'an, Traditions and Interpretation Reprint ed. [S.l.]: Oxford University Press. ISBN 978-0-19-511148-4 

Crítica literária

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  • M.M. Al-Azami (2003). The History of The Qur'anic Text: From Revelation to Compilation: A Comparative Study with the Old and New Testaments First ed. [S.l.]: UK Islamic Academy. ISBN 978-1-872531-65-6 
  • Boullata, Issa J, ed. (2000). Literary Structures of Religious Meaning in the Qur'ān. [S.l.]: Curzon Press. ISBN 0-7007-1256-9. Cópia arquivada em 14 de agosto de 2025 .
  • Luling, Gunter (2003). A challenge to Islam for reformation: the rediscovery and reliable reconstruction of a comprehensive pre-Islamic Christian hymnal hidden in the Koran under earliest Islamic reinterpretations. New Delhi: Motilal Banarsidass. ISBN 978-81-208-1952-8 
  • Luxenberg, Christoph (2007). The Syro-Aramaic Reading of the Koran: a contribution to the decoding of the language of the Koran. Berlin: Verlag Hans Schiler. ISBN 978-3-89930-088-8 
  • Puin, Gerd R. (1996). «Observations on Early Qur'an Manuscripts in Sana'a'». In: Wild, Stefan. The Qurʾan as Text. Leiden: E.J. Brill. pp. 107–111 
  • Wansbrough, John (1977). Quranic Studies. [S.l.]: Oxford University Press 

Enciclopédias

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Revistas acadêmicas

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Ligações externas

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