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Sensorium

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O termo sensorium (plural: sensoria) designa o conjunto das capacidades perceptivas e sensoriais através das quais os seres humanos experimentam e interpretam o mundo. Derivado do latim sensorium, que significa "órgão da sensação" ou "sede das percepções", o conceito foi progressivamente ampliado pelas ciências humanas e sociais para designar não apenas os mecanismos biológicos da percepção, mas também os modos culturalmente construídos de sentir, perceber e organizar a experiência sensível.[1][2]

História do Conceito

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Nas ciências médicas e filosóficas dos séculos XVII e XVIII, o termo era frequentemente empregado para indicar a sede física da sensação e da consciência. Em autores como René Descartes e John Locke, a reflexão sobre os sentidos ocupava posição central na compreensão do conhecimento humano. Entretanto, o conceito contemporâneo de sensorium ultrapassa essa dimensão fisiológica e passa a compreender os sistemas perceptivos como fenômenos simultaneamente biológicos, históricos e culturais.[3]

No século XX, o sensorium tornou-se um elemento fundamental da teoria da mídia desenvolvida por Marshall McLuhan, Edmund Carpenter e Walter J. Ong.[4]

Walter Ong traça a história desse conceito em "A Presença da Palavra". Ele observa que os poetas simbolistas franceses estavam profundamente interessados ​​nos fenômenos da transposição sensorial e da sinestesia, atribuindo cores aos sons, como fizeram Baudelaire e Mallarmé. Ele também destaca as contribuições de filósofos, notadamente Bergson com seu "Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência", e os trabalhos subsequentes de Louis Lavelle e Jean Nogué. Ele conecta, de forma geral, a noção de sensorium ao trabalho da psicanálise, da linguística, de psicólogos como Jean Piaget e Jérôme Bruner, bem como de inúmeros fenomenólogos. [5]

Na história cultural, o conceito foi amplamente desenvolvido por Walter Benjamin. Em seus estudos sobre a modernidade, Benjamin observou que as transformações urbanas e tecnológicas modificaram profundamente a experiência sensível dos indivíduos. Em especial, os ensaios reunidos em A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica mostram como fotografia, cinema e meios de reprodução alteraram a percepção humana e criaram um novo sensorium moderno.[6]

A antropologia contemporânea ampliou ainda mais o conceito. Pesquisadores como David Howes e Constance Classen defendem que os sentidos não constituem apenas fenômenos biológicos, mas também construções culturais. Cada sociedade organiza hierarquias sensoriais específicas, atribuindo maior ou menor importância à visão, à audição, ao tato, ao olfato ou ao paladar. Dessa perspectiva, o sensorium corresponde ao conjunto das formas culturalmente estruturadas de percepção e experiência sensorial.[7][8]

Nos estudos da cultura visual e da comunicação digital, o conceito de sensorium tornou-se particularmente relevante para compreender os impactos das tecnologias contemporâneas. Smartphones, redes sociais, realidade virtual, inteligência artificial e ambientes digitais imersivos modificam continuamente as formas de atenção, percepção e interação social. Autores como Jonathan Crary argumentam que a cultura digital reorganiza os regimes de percepção, produzindo novas experiências do tempo, da imagem e da presença.[9]

No contexto da cultura visual contemporânea, o conceito também tem sido aplicado ao estudo da selfie, das redes sociais e das práticas de autorrepresentação digital. A circulação constante de imagens, vídeos e estímulos visuais contribui para a formação de um sensorium digital caracterizado pela conectividade permanente, pela instantaneidade da comunicação e pela centralidade da imagem na experiência cotidiana. Nesse sentido, compreender o sensorium contemporâneo significa investigar como as tecnologias transformam não apenas os meios de comunicação, mas os próprios modos de sentir, perceber e construir a realidade.[10][11][12]

Assim, o conceito de sensorium constitui uma ferramenta teórica fundamental para analisar as relações entre corpo, percepção, cultura e tecnologia. Sua importância reside justamente em permitir compreender que a experiência sensível humana não é fixa nem universal, mas historicamente variável e profundamente influenciada pelos contextos sociais, culturais e tecnológicos em que se desenvolve.[13][14]

O Sensorium na Era Digital e os Horizontes da Experiência Humana

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O conceito de sensorium ultrapassa a compreensão estritamente biológica dos sentidos para designar os modos históricos e culturais pelos quais os seres humanos percebem, interpretam e experienciam o mundo. Desde as reflexões filosóficas sobre a sensibilidade até os desenvolvimentos contemporâneos da antropologia dos sentidos, o conceito revelou-se fundamental para compreender que a percepção humana é simultaneamente corporal, social e cultural. Os trabalhos de David Howes e Constance Classen demonstram que os sentidos não constituem um sistema universal e imutável, mas são organizados de formas distintas em diferentes sociedades e períodos históricos. O sensorium, portanto, deve ser entendido como uma formação histórica que expressa valores, hierarquias perceptivas e modelos culturais específicos.[15]

As transformações tecnológicas das últimas décadas ampliaram significativamente a relevância desse conceito. A expansão das mídias digitais, das redes sociais, dos dispositivos móveis e dos ambientes virtuais produziu novas formas de atenção, interação e experiência sensível. Nesse contexto, diversos autores passaram a falar em um sensorium digital, caracterizado pela integração constante entre percepção, conectividade e circulação de imagens. A experiência cotidiana passa a ser mediada por fluxos contínuos de informação visual, sonora e tátil, alterando os modos pelos quais os indivíduos constroem sua relação com o tempo, o espaço, o corpo e a memória. O sensorium contemporâneo não apenas utiliza tecnologias; ele é progressivamente moldado por elas.[16]

Essa perspectiva permite compreender fenômenos contemporâneos como a selfie, a cultura das redes sociais, a realidade virtual, os ambientes imersivos e as novas formas de comunicação digital. Tais práticas não representam apenas mudanças técnicas nos meios de comunicação, mas profundas transformações nos regimes de percepção que estruturam a vida social. Como observa a antropologia sensorial contemporânea, a experiência humana é continuamente reorganizada pelos meios através dos quais percebemos e produzimos significado. Assim, estudar o sensorium significa investigar os próprios fundamentos da experiência cultural. [17]

Referências

  1. HOWES, David (org.). Empire of the Senses: The Sensual Culture Reader. Oxford: Berg Publishers, 2005.
  2. CLASSEN, Constance. Fundamentos de uma antropologia dos sentidos. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 33, n. 96, 2018.
  3. CLASSEN, Constance. Fundamentos de uma antropologia dos sentidos. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 33, n. 96, 2018.
  4. Ong, Walter J. 1991. The Shifting Sensorium. In The Varieties of Sensory Experience. David Howes, ed. Toronto: University of Toronto Press. p. 47-60
  5. ONG, Walter J.The Presence of the Word: Some Prolegomena for Cultural and Religious History. Yale University Press, 1967, ISBN 0300099738
  6. BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 2012. p. 179-212.
  7. HOWES, David (org.). Empire of the Senses: The Sensual Culture Reader. Oxford: Berg Publishers, 2005, pp 7-12
  8. CLASSEN, Constance. Worlds of Sense: Exploring the Senses in History and Across Cultures. London: Routledge, 1993, pp 1-15.
  9. CRARY, Jonathan. 24/7: Late Capitalism and the Ends of Sleep. London: Verso, 2014, pp 27-48.
  10. HANSEN, Mark B. N. Bodies in Code: Interfaces with Digital Media. New York: Routledge, 2006.
  11. MANOVICH, Lev. Instagram and Contemporary Image. New York: Manovich.net, 2017. Disponível em: Instagram and Contemporary Image. Acesso em: 4 jun. 2026.
  12. VAN DIJCK, José. The Culture of Connectivity: A Critical History of Social Media. Oxford: Oxford University Press, 2013.
  13. CLASSEN, Constance. Worlds of Sense: Exploring the Senses in History and Across Cultures. London: Routledge, 1993, pp 1-15.
  14. LE BRETON, David. Antropologia dos sentidos. Petrópolis: Vozes, 2016, pp 15-29
  15. HOWES, David. Sensorium : contextualizing the senses and cognition in history and across cultures.Cambridge, United Kingdom ; New York, NY : Cambridge University Press, 2024. ISBN 9781009329682
  16. HOWES, David. Quali(a)tative Methods: Sense-Based Research in the Social Sciences and Humanities. Concordia University, Canada. DOI: https://doi.org/10.18778/1733-8077.18.4.02
  17. HOWES, Dadid. Multisensory Anthropology. Annual Review of Anthropology Volume 48, 2019.